SEGREDOS DE BASTIDORES

CUNHA SIMÕES
PORTUGAL
UM PAÍS INGOVERNÁVEL?
SEGREDOS DE BASTIDORES
Dedicatória
A todos os portugueses que dizem não à mediocridade, à pobreza e à indiferença.
ANGÚSTIA
Desesperado pelo que está a acontecer a Portugal, que eu amo mais do que a mim próprio, tenho de gritar a minha dor e a minha revolta. Custe-me ela o que custar.
Nunca troquei este País por outro apesar de me ter sido oferecida uma fortuna incalculável pelo banqueiro e capitalista americano, Edwin Budge Mead, padrinho de meus filhos. Edwin propunha-se deixar-me toda a sua fortuna, mas com a condição de viver nos Estados Unidos e naturalizar-me americano.
E tudo isto porquê? Porque eu tinha ajudado a sua mãe em Santiago do Cacém. Ela queria que eu fosse para os Estados Unidos.
Apesar da tentadora oferta, e ele aqui ter vindo expressamente três anos seguidos para me persuadir a mudar de opinião, nunca o fiz porque o amor a Portugal, 1965,66,67, e dizem que estava em ditadura, foi mais forte que toda a riqueza a que facilmente teria acesso.
Por isso, e porque os anos correm mais do que a vontade de os fazer, tenho de mostrar a minha indignação pelo que está a passar em Portugal. É só por essa causa que desvendo pequenos segredos, desta mesquinhez política a que chegámos, depois de um pronunciamento militar que todos recebemos de braços abertos.
As revelações que aqui deixo não estavam programadas para este momento, até talvez nunca viessem a lume, tal como outras que ficarão esquecidas ou reservadas para as calendas gregas.
A situação de Portugal, neste momento, não permite que guardemos segredos. É como se estivéssemos no Juízo Final, onde cada um grita os seus pecados, mas também os seus maiores sofrimentos para que o País se salve depois de ter feito a sua catarse.
Perdi o respeito aos homens.
Não perdi o amor a Portugal
UM PAÍS INGOVERNÁVEL
OU POLÍTICOS INCAPAZES?
O grave crime dos governantes deste País, desde que se democratizou, é teimarem em manter este Povo na mais desbragada ignorância.
Os culpados foram sempre os que desgovernaram antes. Andamos assim há séculos. Os delinquentes foram sempre os outros.
O português até nem precisa de desculpas. A sua inteligência, a sua capacidade de trabalho, a sua imaginação e a sua sensibilidade são suficientes para não ter que se desculpar com coisíssima nenhuma. Basta trabalhar, concentrado na tarefa que lhe está destinada. Das suas qualidades nasce a riqueza e a prosperidade.
Aquilo a que o português não resiste é à má-língua e à intriga. Se ele toma conhecimento das críticas que lhe fazem, claudica imediatamente. É um erro que tem que ser corrigido e contra o qual todos temos de lutar. Sobre essa peste já lhe tentei pegar fogo ao escrever no semanário “A Província”, logo nos começos desta atribulada revolução, da qual ainda não conseguimos despir a estupidificação inicial:
A má-língua em Portugal é a única instituição que funciona.
Nunca ninguém tentou fazer neste país fosse o que fosse que não levantasse de imediato uma onda de maledicência.
Por esse mundo de Cristo, deixa-se governar quem governa e trabalhar quem trabalha. Em Portugal ainda não se conseguiu esse objectivo. Na verdade, quando é preciso, mas só quando é preciso utiliza-se a crítica inteligente, séria e frontal.
Em Portugal, seja qual for o serviço a prestar ou prestado, injuria-se, sabuja-se, difama-se. É a resposta da incompetência num país em que muitos não querem trabalhar e muitos outros não sabem trabalhar.
O Governo terá dois caminhos: o caminho do passado; via Salazar, obrigando, a safanão, a meter a viola no saco aos imbecis. A outra solução é cerrar os ouvidos a quem não merece atenção e ordem nenhuma.
Seja qual for a estratégia da maledicência há que continuar o caminho das decisões, da reconstrução, do ressurgimento nacional indispensável ao País aonde todos desejamos que dê gosto viver.
Faz falta deixar que os outros se sintam livres, senhores da sua iniciativa, da sua imaginação, da sua actividade de trabalho, não inutilizando com os pequenos desgostos os homens e as mulheres que podem e devem transformar Portugal.
Isso mesmo não quer dizer que não haja crítica ou que ela tenha que ser benévola ou inoperante.
Isso mesmo não quer dizer que se afrouxe a guerra sem quartel aos traidores da pátria e aos que vendem o país todos os dias.
Isso mesmo não quer dizer que não se possa utilizar a máxima severidade para os pseudo democratas e para os trapaceiros políticos que utilizam a liberdade ingénua das democracias para as aniquilar sem dó nem piedade e para todo o sempre.
Dou-lhe alguns exemplos.
Um dos homens mais inteligentes deste País é o Dr. Almeida Santos, no entanto teve o azar de ouvir o boato, a má-língua, a injúria sussurrada. Não aguentou a infâmia. Continuou o seu trabalho, fez leis, dirigiu a Assembleia da República foi o maior suporte de Mário Soares. Tenho a certeza que, sem Almeida Santos, Soares dificilmente teria conseguido levar o barco a bom porto e conquistado tanta simpatia à esquerda e à direita. Ele que é propenso a ter os seus deslizes.
Almeida Santos apagou-se, não foi Primeiro-Ministro, não foi Presidente da República porque a má-língua o abafou. Lamentei. Eu que sou um centrista, de todos os quadrantes, apostava neste socialista.
Lembro-me do Doutor António Arnaut, que desesperado por todos os entraves colocados ao Serviço Nacional de Saúde e do qual esteve a um passo de desistir perante as resistências que lhe eram levantadas. Fui ter com ele e incitei-o a continuar. Ele olhou para mim, admirado.
- Ó Cunha Simões, mas o seu Partido é contra.
- E que tem isso? O Serviço Nacional de Saúde é bom para os portugueses. O senhor não pode desistir.
Não fiz mais que o meu dever. O Doutor António Arnaut é genuíno. É alguém que ama muito o País e o que faz é porque pensa ser o melhor para Portugal. Ainda agora, em 13 de Dezembro de 2004, o Dr. António Arnaut tenta que seja feito um pacto de regime político partidário que confira estabilidade ao sector da saúde de modo a impedir mudanças estruturais sem ter havido uma avaliação das experiências anteriores.
Vejamos agora o Doutor Paulo Portas. Este cilindrou as críticas e a má – língua. Tapou os ouvidos, não deu importância às atoardas, à ignorância, à malvadez política e, perante o espanto geral, apresentou trabalho, deu mais valia ao País e conseguiu confundir e aniquilar os adversários.
Como é que, Paulo Portas, conseguiu livrar-se desta escória falante? Aprendeu com os erros cometidos, aprendeu na escola do jornalismo, o que é honesto e o que é desonesto, e no Governo resolveu, em vez de ouvir os tagarelas, trabalhar.
Santana, que é um homem inteligente, é mais inseguro. Ainda não conseguiu libertar-se dos que aproveitam as suas debilidades para o diminuir e achincalhar. Julgo que vai libertar-se desse medo, principalmente da acusação de andar pelo “Stones” e de ter as suas amigas. Felizmente que tem. Só um homem compensado pode trabalhar com redobrada energia.
Sócrates, também é um homem inteligente. Pisa mais leve. Estuda mais as palavras, é mais susceptível às críticas e à má-língua. Necessita de um suporte para lhe incutir confiança. António Vitorino pode ser o seu Almeida Santos.
A directora do Notícias Magazine, em 26 de Dezembro de 2004, Isabel Stilwell, não tem dúvidas sobre o que falta aos homens: “...as extremosas esposas...emprestam à sua cara-metade um sexto sentido, que falta à esmagadora maioria dos homens. Os elementos do sexo masculino formataram o cérebro para não se chatearem, ou melhor, para se chatearem o menos possível.”
Como estes três actores, da cena política portuguesa, estão abrangidos na sua análise, sintetizemos: a escritora tem carradas de razão e, para que este País normalize, acrescento, os políticos deviam ter coragem para repartir os cargos fifty-fifty, tanto nos ministérios como para deputados. Mas...as mulheres ainda hesitam em aceitar responsabilidades governamentais, escondem-se e...os homens perdem a paciência com o jogo do gato e do rato. Por outras palavras e parafraseando a escritora: os homens não estão para se chatear.
O português não lhe interessa que, quem o governa, homem ou mulher, seja da direita, da esquerda ou dos extremos e que tenha os seus pecadilhos. Quem os não tem? O português quer é ser bem governado, quer saber o que deve fazer dentro da legalidade. Se não lho dizem desenrasca-se. Não paga impostos porque também não sabe muito bem como fazê-lo. O português não sabe, e é sempre prejudicado na sua ignorância. É o bombo da festa, como a ele próprio se define. E é tão simples ensiná-lo. Há duas vias:
A primeira, na escola. Desde o quinto ano os jovens deviam ser ensinados a preencher protótipos de pagamento de impostos, duas ou três vezes por ano. Gastavam nisto, umas três horas. Seriam eles a ajudar os pais, menos habilitados, a preencher a papelada.
A outra forma seria utilizar a televisão, com explicações naturais, pausadas, simples, nada rebuscadas e sem a chapa do Governo, para não haver uma rejeição própria deste Povo que gosta de ser bem mandado, mas não gosta de se sentir comandado.
Com Salazar, fazia-se ronha. Quem achava que devia pagar impostos indirectos pagava, quem não queria pagar não pagava. Dou um exemplo. Salazar aproveitava todas as migalhas para equilibrar o orçamento. Foi assim que ele conseguiu endireitar o País e as finanças. Pagava-se 10 cêntimos, por ano, para poder usar isqueiro. Mesmo sendo diminuto o custo da licença nunca me lembro de alguém a ter tirado. Talvez nas grandes cidades isso acontecesse, mas nas aldeias todo o dinheiro era pouco. Era a época das hortas, dos galinheiros e dos pequenos serviços. Era o tempo da economia de subsistência. O slogan motivador era: “Trabalhar e poupar, manda Salazar”. Todos tinham consciência que os tempos eram difíceis e o pouco que havia tinha de chegar para os que nada tinham. A solidariedade era muito grande. A inflação era desconhecida. Quem pensasse em melhorar de vida passando-se para Espanha, imediatamente constatava que o nível de vida era muito mais baixo no país vizinho. A peseta, o equivalente ao escudo, cem centavos, era comprada a 40 centavos, igual hoje a 0,2 cêntimos.
Ninguém passava fome porque o Estado se encarregava, de uma maneira ou de outra, de alimentar os mais carenciados. Na minha terra havia um quartel. O rancho dos soldados era o rancho de todos aqueles que o quisessem ir buscar. Mas havia pobres de pedir esmola, daqueles que andavam de terra em terra, fugindo do trabalho, como hoje fazem os romenos. Fingem-se doentes, coxos, vesgos, cheios de tremuras e lá vão explorando quem trabalha. São os parasitas da nova Europa que desaguam em Portugal porque é um País de brandos costumes e caridoso.
Não temos para nós, mas alimentamos a preguiça dos outros por causa desta bondade inata que nos faz diferentes dos outros povos da Europa que, democraticamente, os correm para fora das suas fronteiras.
Aquilo que parecia impensável, depois do 25 de Abril, acontece hoje, já que, com Marcello Caetano, os pobres de pedir não existiam. O número de desempregados era diminuto. Em 2004, temos quase sete por cento. Há famílias com graves carências alimentares, tanto no Vale do Ave como noutras regiões do País. O Alentejo continua a desertificar-se, não por causa do latifúndios, mas porque as pessoas se recusam aí a viver. Andamos há séculos a tentar modificar a situação e ainda não apareceu ninguém capaz de resolver um problema que me parece de fácil solução, mas que os sucessivos regimes e Governos ainda não conseguiram despachar.
Em 1893 são instaladas colónias agrícolas no Alentejo para evitar o despovoamento. Salazar tentou fazer do Alentejo o celeiro de Portugal. Tudo fracassou. A população emigra porque não quer passar dificuldades, o que é compreensível.
O português envergonha-se de pedir e podemos ser confrontados com atentados à própria vida o que seria desonroso para todos os que estamos no mesmo barco.
Quem não trabalha não desconta para a Segurança Social, que acabará, rapidamente, por se ver confrontada com um maior número de reformados do que pessoas no activo.
Os culpados são os políticos, que por cobardia, ignorância, ou por interesse partidário têm deixado degradar a situação económica do País. O descaramento é grande porque sabem estar a lidar com um Povo mal informado. Aquilo que hoje dizem, desdizem amanhã só porque não estão no Governo e têm de deitar abaixo os que os substituíram. E fazem isto, ganhando mal, quando ganharem bem vai ser a catástrofe total.
Sobre o que acabo de dizer, nada melhor do que meditar no que escreve o Dr. Francisco Sarsfield Cabral, no DN de 22 de Dezembro de 2004:
“Há muita hipocrisia na indignada reprovação do recurso a receitas extraordinárias para cumprir o défice orçamental de 3% do PIB. Muitos dos que agora criticam tal recurso são os mesmos que, antes, ridicularizavam a obsessão pelo défice. Ora, sem receitas extraordinárias o défice real teria de ser menor, logo necessitaria de uma política orçamental mais restritiva – quando esses críticos reclamavam precisamente uma política menos restritiva...”
Por este pequeno excerto se pode avaliar o contorcionismo dos políticos que não têm pudor em embrulhar o povo.
Sabem que o povo não entende e desejam que ele continue a não entender. Foi por isso que se lançaram sobre o encarte explicativo que o Governo colocou nos jornais, em 22 de Dezembro de 2004, com a finalidade de o povo atingir de modo claro, simples e objectivo como, e o que fazem os políticos. Mas os da oposição não querem. Preferem um País de cegos, surdos e broncos a um País de pessoas sensatas, inteligentes e cumpridores dos seus deveres.
Se o povo não cumprir, os políticos têm sempre uma desculpa. E tantas hão-de arranjar que o País cairá de podre porque totalmente esvaziado de conteúdo.
Para o Doutor António Lourenço dos Santos, a situação do País é grave e não suportará mais duas fases semelhantes, com paliativos sucessivos, não resolvendo seja o que for e agravando cada vez mais a situação sócio – económica devido à incapacidade de gestão. Aquilo que poderá acontecer é que o próprio povo, devido à sua frustração, desorientação e à diminuição constante do seu poder de compra, force uma mudança de atitude em que os governantes tenham autoridade efectiva para impor as regras e assim se consigam atingir os objectivos propostos.
É indigno que se continue a abusar deste Povo, da sua fraca cultura, e das suas crenças simples para o enganar.
Eu tive de usar uma espécie de homeopatia mental, fui forçado a descer até aos seus medos, às suas crenças, às suas superstições para o tentar erguer. Aproveitei a crendice para lhe incutir força através de livros muito simples, mas com algo em que o Povo acredita.
Partindo sempre da ideia daquilo em que crêem, tento demonstrar-lhes que a força está em cada um, que eles são gente válida, que devem estudar, que têm de colocar os filhos na escola, que têm de recusar ser pobres e que podem acreditar nos santos que bem entenderem, mas, principalmente, acreditar neles.
É indiferente a religião que professem. São eles que têm de resolver as suas dificuldades, e repito isto muitas vezes: estudando, aprendendo, cultivando-se, trabalhando e recusando ser pobres. Aplico mesmo expressões desagradáveis como: os pobres são os excrementos de Deus, os pobres são escravos, os pobres são a escória da sociedade. Depois explico: os santos desencarnados ou os espíritos não são mais que energias que se podem aproveitar, mas, para que isso aconteça, é preciso que cada um acredite em si, que lute e esbraceje até alcançar o que pretende. O espírito só ajuda se nós nos ajudarmos a nós mesmo.
É com esta simplicidade que tenho tentado ir em socorro do Povo que eu amo como amo os meus próprios filhos e netos porque compreendi que muitos não conseguem assimilar de outra maneira.
É infame que tenhamos dois milhões de pobres.
Enquanto o povo não estiver todo altamente alfabetizado e com graus superiores, que até podem ser adquiridos através da televisão ou da Internet ou das duas em conjunto, a superstição e a insistência no “há-de ser o que Deus quiser”, nunca mais acaba. Esta gente fica paralisada à espera do milagre, quando o milagre está no estudo, no conhecimento e na vontade de trabalhar.
Os milagres são o fruto das nossas energias, do nosso trabalho, do nosso estudo do nosso conhecimento.
Quer melhor exemplo de milagre do que o daquela miúda inglesa, a Tilly, com dez anos, que alertou para a chegada do Tsunami, em 26 de Dezembro de 2004, e com isso salvou cem pessoas? E fez o milagre porquê? Porque aprendeu na escola como se formam os Tsunami.
A vida não pode continuar a ser um jogo constante de roleta russa. Se não se despertar o entendimento e o raciocínio, a beataria continuará a semear a crendice e a perseguir os menos cultos para os manter amarrados e deprimidos. Só assim, as beatas, se podem manter à tona de água. É um erro que também vão pagar caro. A ciência e o conhecimento podem explodir todos os dias. A Internet, a televisão e as outras tecnologias de suporte forçam que toda a aprendizagem se faça a velocidades excitantes e de uma maneira acessível a todos.
Sou forçado a falar de mim e do que tenho feito, não para alcançar seja o que for, ou para me diminuir, segundo o ponto de vista de cada um, mas porque estamos com a corda no pescoço e nunca mais sairemos das dificuldades, em que todos nos encontramos, se não conseguirmos rasgar os analistas de café onde cada um imprime a sua opinião segundo o que tem no bolso. Um diz uma coisa, outro diz o contrário e o Governo, por incrível que pareça, ouve todos os disparates.
Ninguém está contente com a situação em que há trinta anos nos confrontamos. Trinta anos é muito tempo para o ser humano, que tem a vida a prazo.
O mundo entristece-me, não, por aquilo que tenho passado, mas pelo que os outros passam. Pela fome, pela pobreza envergonhada, pelas crendices ingénuas, pela exploração desenfreada dos homens pelos homens, esquecidos que nada mais são que pó e que nada poderão levar com eles quando se desfizeram em lama e se transformarem em fétidos monturos, verdadeiros espelhos do que fizeram e sugaram nesta vida.
O Povo Português é um povo crédulo, bom e ingénuo, que está a ser lançado para o abismo por incapazes que perdem tempo em guerras de campanário em vez de se debruçarem sobre os assuntos do País e resolvê-los.
O Povo não sabe mais porquê? Porque não estuda. E não estuda porquê? Porque não tem tempo. Trabalha de manhã à noite, ganha pouco e como não sabe esticar o dinheiro, reza. A reza é o único bem que lhe sai barato e lhe dá esperança para continuar a viver e a servir. O mal não é rezar. O mal é transfigurar a reza e fazer dela uma obsessão incapaz de transformar as orações em pão, dinheiro e bem-estar.
Os sacerdotes das diferentes igrejas têm de compreender que estão no século XXI e que eles têm de ensinar a complementar as rezas com acções; com trabalho, com estudo, com conhecimento. Têm de ajudar o Governo a mudar as mentalidades. É um erro continuar a insistir que “dos pobres é o reino dos céus”. É uma infâmia. Mesmo que houvesse céu, os pobres nunca lá entrariam porque a fome e as dificuldades fazem que cometam actos e profiram palavrões que os legisladores eclesiásticos reprovam segundo os cânones estabelecidos. Por favor! Estamos no século XXI. Deixemo-nos de ilusões e de mentiras. O reino dos céus é neste mundo.
As religiões, mais do que instituições para descobrirem e imporem novos deuses são veículos para complementar a educação dos povos. Oiçam Maomé quando fala para Fátima: “a higiene é uma manifestação de fé”. Os religiosos substituem-se aos políticos nestas regras fundamentais para a convivência humana e, quando os políticos se mostram incapazes de governar, eles tomam-lhes os lugares.
As pessoas têm de ser motivadas a tirar o máximo de rendimento das suas capacidades e a não se envergonharem de trabalhar, tanto as analfabetas como aquelas que têm cursos superiores.
No barco estamos todos e todos temos de sair desta gravíssima situação que em 2005 ainda nos encontramos.
Um dos grandes obstáculos dos Governos, em Portugal, é em saber fazer passar a mensagem. Quando o tentam, a oposição barra-lhes o caminho. Quem está na oposição, obstrui. Usa qualquer método para derrubar o Governo e quem as paga é o Povo, sabendo perfeitamente que todos saímos prejudicados.
O PCP e o BE abusam do bota-abaixo, o que os desacredita.
Não é compreensível que os Governos façam tudo errado. O povo não é tão parvo como o fazem e os resultados reflectem-se nas eleições.
Como estou em maré de revelações não me custa nada dizer que já votei no PCP, eu que em plena Assembleia declarei que com o PCP nem para o céu ia, só para ver se esta política de incertezas e fantasia mudava.
Embora tenha sido mimoseado, muitas vezes, no Parlamento, com protestos de fascista. Mostrei, a mim mesmo, que ao votar no PCP respeitava o Partido, embora tivesse dúvidas quanto ao resultado do voto. Aquilo que eu fiz deve-o fazer o Povo Português; tenta acertar ou abanar as estruturas para ver se o País entra nos eixos. Umas vezes vota nuns, nas seguintes vota noutros.
Somos dez milhões. Ninguém sabe ao certo quantos somos. Sabemos que somos dez milhões, mais coisa menos coisa. Isto é um País de incertezas e de improvisos, mas imaginando que somos dez milhões, só quinze por cento vivem razoavelmente. Os outros servem. É um País de serviços. Esticando mais a palavra...é um país de serviçais. Isso devia-nos envergonhar. Somos poucos e devíamos ser todos bons. Todos devíamos ser altamente especializados e viver ricos e felizes. A felicidade dá saúde.
O Povo Português é um povo dócil, inteligente, sensível, amoroso, quando o tratam bem. Mas quando se sente aguilhado é imprevisível. O santo pode transformar-se, em segundos, no pior criminoso, no maior facínora e não se arrependerá, se julgar que tem razão. Quando compreende que errou, humilha-se e envergonha-se do que fez. Se puder repara o dano que causou, nem que para isso leve toda a vida. É por isso que é um equívoco e um desperdício gastar dinheiro em prisões. É aí que o português se torna marginal. É aí que ele ganha ódio à sociedade, quando compreende que o castigo podia ser transformado em trabalho a favor da comunidade. A cadeia é a Universidade que nunca teve. Quando sai vai cobrar o preço e espera o tempo que for preciso para se pagar da injustiça.
Mas neste país, a par deste povo afável, há uma casta de indivíduos que se julgam acima dos pecados de quem pouco ganha porque pouco sabe. Esta espécie são as Virgens de pecados: não prevaricam, não insultam, são bons pais e mães, não dão facadinhas no matrimónio, e querem que todos obedeçam ao que eles ordenam...enfim, são uns refinadíssimos dissimulados e mentirosos. Com estes tipos todo o cuidado é pouco.
Não é mais sensato ajudar a resolver os problemas do que aumentá-los? Não. Eles pensam, que dessa maneira, podem tirar benefícios de um Povo que ainda tem um milhão e meio de analfabetos e oito milhões e meio de indivíduos que sabem ler e escrever. Destes oito milhões e meio, sete milhões não compreendem bem o que lêem. Por último, há quase quinhentos mil, com cursos superiores.
Por estas razões vivemos num País:
De desconfiados
De pequenas traições
De pequenos rancores
De invejas mesquinhas
De falsos preconceitos
De falsos puritanos
De improvisadores inconsequentes
De imprudentes por natureza
De individualistas sem remédio
De egoístas ordinários
De hipócritas sem-vergonha quando defendem, com unhas e dentes, os mais desfavorecidos, e por trás lhes chupam corpo e alma, arranjando fortunas colossais, nunca explicadas, e que nunca serão capazes de gastar em vida ou de lhes dar qualquer utilidade.
Agarrem num político, daqueles que dizem que os políticos ganham pouco, e vejam a fortuna que esconde e a que está à vista.
Os governantes têm dinheiro para tudo: para carros de alta cilindrada e de altíssimo preço. Têm gabinetes luxuosíssimos. Pagam somas astronómicas por estudos que deitam fora. Esbanjam dinheiro em pagamentos imorais. O caso das SCUTS é um exemplo que custa acreditar. O Estado paga 700 milhões em cada ano e durante quinze anos. Segundo cálculos de gente de fora do Governo, ao fim de três anos as SCUTS estariam pagas com juros altíssimos e isto ficaria por aqui, mas não, elas continuam a ser pagas durante mais doze anos. Quem é que se lembraria de construir dez estádios de futebol, quando cinco seriam mais que suficientes? Quanto custaram? 800? 1000 Milhões? Interromperam a construção da barragem, em Foz Côa, porque as gravuras não sabiam nadar, mas ninguém teve a coragem de dizer que elas não se afogavam. Com este despautério travaram o desenvolvimento da região e deitaram para o lixo 500 milhões de euros. Como é que assim se pode Governar um País? Este despesismo malbaratado, junto com milhares de compras acima dos preços reais tem corroído o Estado e todos os cidadãos.
Afinal quem é que se está a governar à conta de todos os portugueses?
Tanto os políticos de esquerda como de direita e das extremas se tapam mutuamente, embora se combatam com fogos de artifício.
Quando me lembro que depois do 25 de Abril, o Dr. Ramiro Valadão foi levado a tribunal por oferecer um ramo de flores a uma senhora, com o dinheiro do Estado, e que essa postura nos recordava que o dinheiro do Estado é sagrado e que não pode ser jogado fora de qualquer maneira. Como vão longe as boas intenções. E com que custos! Onde está a democracia? Onde está a honradez? Onde esta a coerência?
O Estado, com Governo instalado em Lisboa, gasta e desbarata, só ele, metade do que Portugal produz. Denunciei esta atitude na Assembleia da República com a intervenção intitulada “Os Saques de Lisboa sobre a província”, ver: Intervenções – Internet www.cunhasimoes.net Mas tudo cai em saco roto. Por esse motivo me retirei da política.
Há empresas onde o Estado é accionista e em que os ordenados são cem vezes o ordenado mínimo nacional, outras um pouco menos e outras bastante mais. E não lhes falo das gratificações de fim de ano que atingem somas astronómicas. Claro que estes lugares estão reservados à esquerda e à direita que se vão revezando no poder e aos outros Partidos que por isso escondem estes cambalachos. Admira-me como a Imprensa não agarra estes assuntos e não os toma como desígnios nacionais a que deve prestar atenção antes que o País soçobre.
Um País que não respeita os seus cidadãos, a sua cultura, não desenvolve a sua inteligência e não satisfaz as suas aspirações por delapidação do património e má gestão do Povo e dos recursos naturais não pode ser um país a sério.
Apesar de se lamentarem do ordenado que ganham, a verdade é que os políticos lutam e sabujam arduamente para obter tão cobiçados lugares.
Agora que a Assembleia da República fechou, Dezembro de 2004 e só reabrirá em Março de 2005, com novos Deputados, aqueles que entraram no desemprego são pagos principescamente, comparado com o que produzem, enquanto que os trabalhadores do Vale do Ave e de todos os Vales do Ave, por esse país fora, quando são despedidos e perdem o emprego esperam meses para receber um subsídio de miséria e vão, em profundo sofrimento, passar os Natais, fins de ano, Páscoa e todos os dias do ano bebendo lágrimas, dor e desespero. Acham justo?
Quantos comissários políticos (aqueles que vão para as instituições tuteladas pelo Estado), Deputados, Ministros, Secretários de Estado e quejandos já estão reformados depois de terem passado pouquíssimos anos por estes lugares? Quantos? Que idade têm?
Aquilo é tão mau que ainda hoje toda a gente se lembra quando o PS pretendia vender a sede no Largo do Rato porque as dividas eram incomportáveis. Foram para o Governo e tudo se resolveu instantaneamente. Agora que o Presidente dissolveu o Parlamento, a sede do Largo do Rato já não lhes serve para as reuniões, preferem hotéis de alto luxo onde as mordomias são dignas de alguém que já se banqueteia à mesa do orçamento. Começaram a gastar à conta. Os outros Partidos, com excepção do PCP, não ficam atrás do PS. Mas este tem especial responsabilidades porque se reclama dos trabalhadores e das classes sociais mais desfavorecidas. Eles dizem isto, mas não dão hipóteses aos pobres. São lágrimas de crocodilo e, tal como diz a canção para a direita, ela também serve para a esquerda: “eles comem tudo, eles comem tudo”... sobram umas migalhas com as quais deslumbram os cegos, os surdos e os broncos nos comícios.
Os políticos têm de dar o exemplo. Salazar impôs-se pela sua própria austeridade. Hoje o povo não tem, tão-pouco, um só que lhe sirva de exemplo em matéria de contenção e de poupança. Uns vão para a neve, outros vão para a praia, outros vão para a China. Ficar em Portugal ninguém fica. Usam automóveis de alta cilindrada em preço e em cavalos. Têm casas de campo, praia e cidade. Vestem do bom e do melhor. Comem em restaurantes a preço proibitivo. Uma refeição representa o salário mensal de um trabalhador não qualificado.
No tempo de Salazar também havia um ou outro que se excedia, não muito, mas bastava que se excedesse para haver o reflexo imediato.
Eu tinha vindo de França, onde estive no Consulado Português em Paris e vim trabalhar para o turismo. Entretanto faltou gente na contabilidade, e fui destacado para lá. Tinha como Director o Dr. Ferro Rodrigues e chefe de Repartição o senhor Veloso. Isto por volta de 1961. O Secretário-Geral era o Dr. Moreira Baptista. No princípio do ano de 1962, o Dr. Moreira Baptista reuniu todos os funcionários para lhes desejar Bom Ano Novo e fez uma enorme prelecção sobre contenção de despesas. Que cada funcionário até nos lápis devia poupar etc e tal. Ora o Dr. Moreira Baptista ia almoçar, muitas vezes, ao Gambrinus. As contas de um só almoço eram mais de metade do ordenado de um terceiro oficial. Resultado: os gastos não diminuíram e até aumentaram, sem que alguém fosse punido por isso.
Nesse ano eu mudei para o turismo. O Director era o Engenheiro Álvaro Roquette e o meu chefe de Repartição, o senhor Forjaz. Saía muitas vezes com estrangeiros. Eu gostava imenso do que fazia. Mas aproximaram-se os concursos para subida de escalão. Avisei que tinha de estudar por causa do concurso e por isso pedia que fosse outro na minha vez. Garantiram-me que não havia problema pois falavam com os examinadores e falaram, mas eu fiquei em sétimo ou oitavo lugar, o que considerei uma ofensa. Sem dizer nada, e com a morte na alma, imediatamente escrevi uma carta ao Secretário-Geral pedindo a minha exoneração. Na carta, depois de apresentar as razões do pedido de exoneração terminava dizendo “lamento deixar V.Excia no meio de acéfalos (os examinadores) como os supracitados”. Estávamos no tempo da feroz ditadura da qual tanta gente tirou partido para chegarmos ao lastimável estado em que hoje nos encontramos. O Secretário do Secretário-Geral era o maestro Ivo Cruz, filho. Uma jóia de pessoa, que veio ter comigo e me disse:
- Ó Cunha Simões, o Dr. Moreira Baptista manda-o chamar. Ele está furioso por causa da sua carta. Veja lá o que lhe diz, peça-lhe desculpa e tudo se arranjará.
Mas eu sou português. Sei que, quando me dá para a asneira ninguém me fará dobrar. Não respondi ao maestro Ivo Cruz e segui-o.
O Dr. Moreira Baptista quando me viu disse:
- Julgava que tinhas mais idade. Tenho aqui esta carta onde tu és muito inconveniente. Toma-a, rasga-a e eu esqueço o que aconteceu.
Eu conheço-me. Quando a ofensa é grande já não há retorno. Respondi-lhe:
- Senhor Secretário-Geral desculpe, mas eu mantenho o pedido de exoneração.
Depois de várias tentativas de conciliação eu não aceitei nenhuma. O Dr. Moreira Baptista disse-me então.
- Em vista da tua teimosia sou forçado a demitir-te e tu nunca mais poderás ser funcionário de Estado.
- Vossa Excia fará o que entender, mas, se me demitir em vez de me exonerar, saiba também que a primeira coisa que farei depois de receber a carta de demissão é ir comprar dois foguetes, cortar-lhes um pouco as canas, passar pela Assembleia Nacional e deitá-los lá para dentro acesos. Hão-de prender-me. Dessa maneira poderei explicar porque cometi o acto. Claro que fui exonerado e ninguém me mandou prender.
Contei a história para mostrar que as fraquezas dos chefes dão azo a que os subordinados lhes falem de igual para igual, mesmo no tempo da ditadura, quanto mais agora nesta democracia aberta e permissiva.
O Exemplo é fundamental para que o povo respeite e acredite nos seus Órgãos de soberania e em quem os representa. É por isso que cada um gasta o que não tem, nem se importa com as consequências. O consumo continuará a disparar enquanto os estrangeiros continuarem a fiar e o Estado servir de avalista.
A degenerescência da classe político-partidária fez que, tanto Salazar como Marcello Caetano, temessem o partidarismo.
Se quisermos comparar os gastos entre o tempo em que tínhamos um Império e hoje, que somos uns pobretanas, sem dignidade e sem vergonha sempre à espera das esmolas da União Europeia verificamos que mesmo endividados até à raiz dos cabelos, e os nossos políticos se queixarem de ganhar pouco, apesar de trabalharem pouquíssimo, no tempo do Império, os Deputados eram 120, havia sete ministros e três Secretários de Estado. Os Deputados ganhavam 30 euros e os ministros não chegavam aos 50 euros. Hoje, com este país, que ninguém leva a sério, os deputados são 230. No meu tempo, 1976,77,78, eram 262. Resultado; só um terço tem alguma coisa para fazer, os outros limitam-se a marcar o ponto e a levantarem-se e sentarem-se no momento das votações.
Aquilo que mais me aborrecia na Assembleia da República era ter muito pouco trabalho, apesar da Assembleia funcionar só de terça-feira a sexta-feira.
São pouquíssimas as pessoas que fazem alguma coisa nos grupos Parlamentares, mesmo as distribuídas nas comissões. Só o Presidente e o secretário e mais dois ou três, dessas comissões, chegam para as encomendas. Os outros são verdadeiros verbos de encher. Eu tive de inventar trabalho porque senão dava em doido. Consequências: impunha intervenções e entrava nas discussões mesmo quando para aí não era chamado. Resultado, às vezes, baralhava o esquema e deixava-os furiosos. Felizmente que no CDS, éramos 42. Posso afirmar que na totalidade era gente educada e inteligente. Se fosse do PCP, a minha sorte teria sido bem diferente. No CDS, apesar dos tratos de polé com que era mimoseado linguisticamente, consegui não entrar no manicómio. Estava muito em baixo, mas ainda mexia. No entanto, ciente que não aguentaria mais quase dois anos, trabalhando a um vigésimo daquilo que poderia render, escrevi, em Janeiro de 1978, para a Escola de Santa Maria do Olival, em Tomar, informando que iria ocupar o meu lugar de Professor logo no início das aulas. Não avisei mais ninguém. Nesse mesmo ano, o Ramalho resolveu dissolver a Assembleia e já não foram necessárias outras formalidades para sair daquela casa. Contudo, durante os meses seguintes a minha actividade continuou a causar imensos problemas por variadíssimas razões. Era a maneira de defender o Povo, que me pagava, e de manter a minha sanidade mental intacta. Eu bem tinha avisado que iria como independente. O meu Partido é o meu País, apesar de eu ser um centrista natural, ou seja, defendo a direita, a esquerda e os extremos, segundo as suas razões a bem de Portugal. É o País que me interessa. Infelizmente não é um País a sério, mais devido à falta de profissionalismo de quem governa e legisla do que por responsabilidade do povo que a única coisa que pede é ser governado.
O Povo Português é, no mundo, o mais sensível, o mais cordato, o mais inteligente e o mais trabalhador, mas todas estas qualidades têm sido adormecidas, muitas vezes à força e outras por falta de chefes prestigiados e conhecedores da sua psicologia.
Nos últimos duzentos e cinquenta anos só dois homens se impuseram e foram obedecidos. Um, Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal. O outro, o Professor Doutor António de Oliveira Salazar. O primeiro usou a força, de maneira muito violenta, mas conseguiu colocar de novo, o País, a par do resto da Europa. Foi-lhe erguida uma monumental estátua, sinal que lhe reconheceram o mérito do trabalho e da inteligência. Salazar, autoritário e nada sanguinário, governou apostando na prevenção. O País sossegou e singrou. As acusações que lhe fizeram são injustas e ingratas. Fez erros, mas fez obra. À acusação de que durante o seu consulado, de quarenta anos, foram mortas 41 pessoas por motivos políticos. No último ano, nas prisões portuguesas morreram 42 pessoas. Mas podemos comparar com outros países e verificar que, mesmo nos países ditos democráticos, e em tempo de paz, os mortos políticos atingiram números, várias vezes, muito superiores. Não falo em Estaline que só num ano mandou matar três milhões de pessoas. Mas os políticos para chegarem ao poder usam todos os métodos: os válidos e os demagógicos. Em Portugal são estes que ainda hoje prevalecem. Quem perde? Os portugueses que ficam à mercê da capacidade e da honestidade destes manipuladores da palavra para iludirem os mais ingénuos.
Assistimos assim, nos primeiros anos pós revolução, a toda a classe de oportunismos, de ameaças, de mortes por brigadas “democráticas” e revolucionárias.
O Povo Português é um povo feliz, bem disposto, alegre, mesmo quando não tem tudo quanto os políticos usufruem. O Povo português não deve ser subestimado. Deve ser ajudado.
Depois da entrada da Inquisição em Portugal, do desastre de Alcácer – Quibir, da reivindicação, da família espanhola, pelo direito a governar o reino de Portugal devido à beata idiotice de um garoto teimoso. Seguiu-se a incapacidade dos Filipes e a razia ultramarina. A coragem, deste Povo, esboroou-se. Compreendeu que não podia acreditar em ninguém. Mesmo assim aceitou apoiar os conspiradores de 1640 e entregar-se nas mãos de alguém que tinha nascido nos campos portugueses. O esforço foi sobre-humano. Quando começava a levantar a cabeça veio o terramoto de 1755. Volta a pôr à prova a sua determinação e a vontade de viver, mesmo contra os elementos naturais, em fúria. Conseguiu erguer-se devido à mão férrea de Sebastião José de Carvalho e Melo. Voltou a acreditar em si. Mas o destino continuou a pregar-lhe partidas. A Revolução Francesa exigiu uma traição ao Aliado mais antigo. Os Portugueses são gente de honra. Não aceitaram a imposição e a mando de Napoleão, os generais, seus lacaios, invadem o País, instalam-se, comem e bebem à francesa, matam e roubam descaradamente. O próprio Junot faz mão baixa da Bíblia dos Jerónimos, resgatada à viúva, por sonante metal. O rei foge para o Brasil e lá ficaria se aqueles que cá permaneceram soubessem governar e tivessem espinha dorsal. Mas aqueles que governam inseguros preferem a canga. Não têm a certeza do seu valor e da sua força. Gostam de morrer acompanhados. Exigem que o rei volte. Com a sua descendência volta a violência e a morte de milhares de portugueses, cujo único crime era ser ignorante e por isso paus-mandados.
A força da gente que tinha criado, a partir do zero, um País, em 1143, continua a degradar-se. O desinteresse pela coisa pública tornou-se geral, o seu desencanto transformou-se em apatia, as suas crenças voltaram-se para as crendices. Acreditaram que não valia a pena ralarem-se com coisíssima nenhuma porque dos pobres era o reino dos céus. Não gozavam cá, gozavam lá. A ignorância, em vez de diminuir, voltou a aumentar.
Desesperados, por enganos sucessivos, matam os reis, eles que são dóceis e amáveis. É o desalento que os faz tomar atitudes violentas.
O português só reage assim quando acossado, quando não tem outra saída. O Sol, o clima, a Natureza onde vive moldou-lhe o carácter. É um ser sem maldade, sorridente, prestável. Só os governantes não prestam. Incham quando entram para aqueles cargos. Dão-se ares. Tornam-se pessoas importantes e intragáveis. Fazem o tirocínio no Governo e passam a administradores de empresas. Continuam a pensar serem gente importante. Mas só o são, na realidade, se servirem o Povo.
Depois dos reis, os portugueses, acreditaram nos Presidentes e na República, mas rapidamente constataram que a melhoria de vida nunca mais aparecia.
Primeiro avisaram os governantes através de greves: 237 entre 1910 e 1911, aguentaram sovas monumentais. Afonso Costa, homem de largas promessas, de palavra fácil, da revolução e da democracia, tenta pôr-lhes cobro. É acusado de racha sindicalistas. Muitos pagaram com a vida a ousadia de levantar a voz. Como, a bem, ninguém lhes dá qualquer crédito, entram no disparate; matam, em 1917, o Presidente Sidónio Pais. Mesmo
assim não são compreendidos. As revoltas são constantes e os mortos aos
milhares. Em 1921 desfazem selvaticamente vários políticos. As vítimas
são António Granjo, que tinha sido Primeiro-Ministro; Machado Santos, José Carlos da Maia e o coronel Botelho de Vasconcelos. O povo perdera a paciência, a fome obliterava-lhes qualquer sentido de respeito ou de dever. O empobrecimento e o embrutecimento do País eram gerais. A situação, catastrófica. O povo exige alguém que o governe. Já nem se importava que o governassem em Ditadura, o que ele queria é que alguém pusesse termo à fome, ao caos, e às revoluções diárias onde os mortos eram sempre muitos. O Povo exigia alguém que o governasse, lhe desse tranquilidade e lhe assegurasse o pão para os filhos. A acalmia voltou finalmente. Mas há sempre os insatisfeitos. Não era aquele governo que ambicionavam, preferiam um de que eles fizessem parte ou pudessem influenciar. Mas nas lutas não se metiam, deixavam que os mais pobres e os mais ignorantes servissem de carne para canhão e se continuassem a matar uns aos outros. Em 28 de Maio de 1926, o General Gomes da Costa derruba o Governo presidido por António Maria da Silva. A presidência é entregue a Mendes Cabeçadas, que governa em Ditadura. Nesse ano é reconfirmada a censura à imprensa. Quando Salazar entra no Governo para a pasta das Finanças, limita-se a aceitar as regras e a avisar. Não era aquele governo que ambicionavam, preferia “Todos os sacrifícios são necessários. Sei muito bem o que quero e para onde vou”. “O País estude, reclame, discuta, mas obedeça quando se chegar à altura de mandar”.
Neste gravíssimo momento em que nos encontramos. O País teima em não estudar. Teima em não se organizar a nível do trabalho. Aprendemos a reclamar, mas não sabemos como o fazer racionalmente.
Reclamamos por tudo e por nada. Obedecer, poucos obedecem, porque ainda ninguém aprendeu a mandar.
É confrangedor comparar esta gente, que hoje nos governa, com Salazar. Vai tudo ficar zangado comigo. Que fiquem. Podem até mandar levantar a forca, mas eu tenho de constatar este facto simplicíssimo. Salazar levantou, em poucos meses, um país depauperado por guerras e revoluções durante dezasseis anos. Nós temos vivido em paz, estes últimos trinta anos, e não há ninguém que ponha as contas em dia? Como é? Afinal Salazar era um génio e todos os Ministros das Finanças, pós 25 de Abril, não passaram de meros contabilistas apesar de Salazar e Caetano lhes terem deixado os cofres cheios? O que se passa?
Marcello Caetano continuou o progresso calculado; assistiu-se à melhoria social com a atribuição de pensões aos trabalhadores rurais e às profissões mais modestas. A sua honestidade também não foi posta em causa.
Com Marcello Caetano há um salto efectivo na qualidade de vida dos portugueses. Ele ama e acredita no povo que o aclama e lhe fala naturalmente. As fotografias da época são elucidativas. Mas tudo cansa, e, sem preparação credível, uma revolução de acaso, que tinha por objectivo uma reivindicação salarial, transformou-se numa revolução política.
Marcello Caetano conhecedor do evento não o trava. Também ele estava desiludido e incapaz de mudar o rumo a um país que não o queria tomar.
⅝No Quartel do Carmo para onde o levaram, o hoje coronel Chartier Martins, recorda a sua atitude, sempre serena, em contraste com aqueles que o rodeavam. Sentia-se que ele sabia o que queria fazer e perante as propostas mais díspares para sair daquela situação e uma delas era para sair por um corredor que o levaria bem longe da multidão que começava a chegar, a sua resposta foi, com um sorriso natural e nada nervoso: “O Primeiro-Ministro não anda pelos telhados. Sei qual é o meu dever. Entrego, naturalmente, o poder o quem a receba com dignidade e saiba defender Portugal”. Feitor Pinto serviu de intermediário e o general Spínola recebeu a herança de um País com oitocentos anos recheados de história.
Marcello Caetano tem esperança que a revolução traga a solução. Américo Thomás, não lhe perdoa esta decisão.
O Professor Marcello Caetano, em carta, que me dirigiu em Novembro de 1978, e em resposta a outra carta minha: por que aceitou ser Primeiro-Ministro e lá continuar..., e que reproduzi no livro “Crónicas da Província e Intervenções Parlamentares”, Internet: www.cunhasimoes.net ; está em “Intervenções”, diz a certa altura:
“...foi isso que me permitiu aguentar cinco anos e meio o regime e fazer um esforço para salvar o que fosse possível, no meio da cegueira dos políticos, da recusa de colaboração dos adversários ou dos reticentes, do egoísmo dos capitalistas, da estupidez da alta burguesia, das ilusões dos intelectuais irresponsáveis, da manobra da Igreja preocupada em não perder algum comboio vindouro e a braços com o problema ultramarino que no país a direita se recusava a compreender da única forma possível e que a ONU não deixava resolver pela única maneira que seria admissível para Portugal...”
O Professor Veríssimo Serrão, numa interessante entrevista concedida à jornalista Paula Oliveira, no suplemento de sexta-feira do Diário de Notícias DNa de 17 de Dezembro de 2004, evidencia bem o carácter impoluto de Marcello Caetano. Para além de todas as referências que lhe faz, bastar-nos-ia saber que, Veríssimo Serrão, um dos mais probos historiadores portugueses não hesita em declarar: “Aprendi com o Professor Marcello Caetano a ser humano e justo” Isto diz tudo. Para termos a certeza absoluta que o Homem que os “revolucionários” vexaram, era um Português, muito inteligente, que amava extremosamente a Pátria e que tudo tentou para melhorar as condições de vida dos seus compatriotas.
Os políticos, chegados à pressa do estrangeiro, prometiam liberdade, pão e dinheiro para todos. Logo no primeiro mês, o português mais culto, viu que as coisas não iriam correr bem. Aguentou a vinda de centenas de milhares de irmãos que abandonavam precipitadamente territórios onde a maioria tinha nascido. Disseram-lhes que assim, os outros, os irmãos de cor se sentiriam mais confiantes. Resultado: assistiu-se à descolonização mais vergonhosa que alguma vez aconteceu na história mundial. Isto tem de ser dito. É escusado escondê-lo por mais tempo. Toda a gente o sabe e ninguém quer cobrar seja o que for. Os políticos falharam redondamente, mas os portugueses brancos e muitos pretos regressaram sãos e salvos, enquanto os descolonizados se matavam sem qualquer razão ou pela simples razão de os nossos políticos, mal preparados e precipitados, não os terem habilitado para se saberem governar. Como desculpa, indecorosa, sem sentido e sem necessidade, acusavam Salazar por tudo quanto de errado eles faziam. Sacudiram a água do capote e usaram a ignorância do povo para o enganar, para o iludir. Leia-se a entrevista do Professor Veríssimo Serrão, atrás mencionada.
O 25 de Abril de 1974 foi recebido com naturalidade por 90 a 95 por cento da população portuguesa. Ninguém ficou preocupado com o que acontecera. Tudo parecia natural e a vida iria continuar, na sua pacatez, com a mudança do regime. Passadas as primeiras 48 horas tudo se transformou. Os cordeiros do dia anterior transformaram-se em alarves, que debitavam tudo aquilo que lhes vinha à cabeça. O país transforma-se, de um dia para o outro, de um país sereno, pacífico, num campo de arruaceiros perigosos, que viram aqui uma oportunidade de ainda fazer menos do que já faziam.
Se em Ditadura, da qual ninguém falava, e poucos saberiam o que era, já só faziam o que lhes apetecia, agora em liberdade só trabalharia quem fosse tolo. Foi assim que este País passou de um país de liberdade condicionada, para alguns, a um país onde o desaforo, a inconsciência e a libertinagem ganharam asas.
Para dar alguns exemplos dos milhares que podia citar vejamos o comportamento deste povo, de baixo e de cima, “que nem se governa, nem se deixa governar”, mais por incapacidade dos governantes do que por resistência dos governados. Todos procedem como as crianças, aproveitando as facilidades para só fazerem o que lhes apetece.
Muito antes do 25 de Abril percorri toda a Europa, enquanto estudante, viajando à boleia, pois sentia-me muito mais limitado e intimidado em França, na Alemanha, na Inglaterra, ou na Noruega, etc, do que em Portugal. Ali as regras eram para cumprir, enquanto em Portugal cada um fazia o que lhe apetecia:
Durante algumas páginas carimbarei na minha pele, a pele de todos os portugueses, para, também eu próprio compreender, se aquilo que o português faz está sujeito às leis do destino, ou se somos os mais livres do planeta, aqueles que vivem no País mais amável, mais rico de imaginação e mais harmonioso do Universo, mas que só tomará juízo lá para 2050, a menos que seja entregue a gestão deste País de amadores, e do seu incipiente trabalho, a mulheres e homens sabedores e conscientes de que governar Portugal não significa governarem-se a eles, mas terem a obrigação de governarem bem a Terra Lusitana. O País destina-lhes o galardão da fama que é a maior honra que o ser humano pode receber. Assim serão poupados anos de incertezas e muita dor e sofrimento.
Poucos dias depois da revolução, começou o desvario.
Se éramos livres, cada um podia fazer o que quisesse. Foi o que aconteceu. A polícia de Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana perderam toda a força. Eram alvos dos mais execráveis atropelos. Eu, a partir dos meus catorze anos tinha deixado de acreditar nas suas virtudes por me terem multado injustamente, a mim e a mais quatro amigos. Por isso mesmo, no meu segundo livro, “Tu cá, Tu lá,” www.cunhasimoes.net publicado em 1962, não perdi ocasião de os depreciar. Depois esqueci, mas nunca mais tinha voltado a olhar um polícia como um amigo.
Vivia em Tomar, onde era professor de Português, Francês no Liceu. Ia beber o “suave veneno” ao Café Paraíso. Ao sair, normalmente, ficava, uns minutos à porta, na cavaqueira, e o que vejo? Eu e as outras pessoas que aí estavam.
Quatro rapazes, do outro lado do passeio, começaram a cuspinhar para cima de três polícias que passavam. Os homens nem se viraram para eles. No dia anterior um polícia tinha sido desarmado, e a arma, até hoje, nunca foi devolvida. Eu pensei para comigo: “eu não morro de amores pela polícia, mas aquilo que está a acontecer vai desaguar no mesmo caos e na mesma desgraça da Primeira República”. Fui para casa e telefonei ao Presidente da Câmara, o Sr. Luís Bonnet. Não lhe contei, no momento, o que tinha presenciado, mas disse-lhe:
- Caro Presidente, como tenho visto alguns turistas estrangeiros, em dificuldades para se entenderem com as autoridades, proponho-me ensinar Inglês e Francês, durante quatro meses aos polícias. Que acha?
- É uma óptima ideia. Agradeço-lhe a disponibilidade, mas tenho de falar com o comandante do posto pois só ele pode aceitar ou recusar. Ele telefona-lhe.
Durante quatro meses ensinei o Inglês e o Francês, mas todos os dias, e pelo meio das lições, eu incentivava-os a cumprirem o serviço, a não terem medo da população, porque a população queria ordem, paz, sossego, estava com eles.
A partir do primeiro mês de aulas a harmonia voltou à cidade porque a polícia não se escusava de actuar.
Por outro lado eu não prescindia de escrever artigos contra as greves. Não pelas greves em si, mas porque os trabalhadores deviam receber dos sindicatos, os dias em que andavam de corpo ao alto e a bradar contra tudo e contra todos, mesmo contra aqueles que estavam a favor deles e sempre tinham sido pessoas honestíssimas. Como eram patrões...tudo apanhava pela mesma tabela. É muito triste a ignorância.
Alguns desses infelizes grevistas acabaram por se suicidar porque as fábricas fecharam. Eles ficaram sem emprego e sem dinheiro. Não resistiram à vergonha.
No Liceu os alunos andavam excitadíssimos. Mesmo os miúdos da primária, como naquele tempo se chamava, apercebiam-se que, agora, eles também mandavam. O meu filho mais novo, tinha 7 anos, foi sempre pacato e educado, mas numa altura em que a professora lhe ia dar um tabefe, ele agarrou-lhe a mão e disse: “Não, não. Eu agora sou livre”. Se a própria professora não o tivesse contado, eu não acreditaria.
Os alunos do Liceu, especialmente os do MRPP, eram engraçados, mas impossíveis. Tornavam a vida difícil tanto na escola como fora dela. Um dia, descia eu do segundo andar, depois de acabada uma aula, quando cinco MRPP sobem as escadas em correria, empurrando todos os que desciam. Gritam-me: “deixe-nos passar, professor, os militares vêm para nos prender”. Uns segundos depois vejo um sargento de metralhadora em punho e mais três soldados que galgavam as escadas preparados para apanhar aqueles irreverentes aprendizes de políticos. Estendi os braços do corrimão à parede. O Sargento, cuja cara estava picada pelas bexigas, tinha um ar ameaçador e, por querer ou sem querer, devido à cólera, encostou-me a arma à barriga. Eu, calmamente disse-lhe. Só depois de me matar fica com o caminho livre. Isto é uma escola. O homem caiu em si. Gaguejou uns monossílabos, voltou as costas e foi-se embora. A partir desse momento, todos os jovens me começaram a olhar como alguém em quem podiam confiar, apesar da minha relação com eles ser de firmeza.
Enquanto o Pocinho, o Mourão, o Margarido, e outros mais que não recordo, faziam comícios nas turmas, sempre que lhes apetecia, quando chegavam à minha nunca lhes dei autorização. Eles diziam uma graça, mas não insistiam. Era perda de tempo. No ano seguinte mudámos para uns pavilhões novos, na Escola de Santa Maria do Olival. Passei também a dar Jornalismo. Um dos meus alunos, o José Gomes Ferreira, é hoje um bem sucedido director da SIC. Chamo o jornalismo à colação para mostrar como o improviso, por vezes é desastroso. Pelas direcções das escolas foram indicados os professores de Português ou de História para dar aulas de jornalismo. Começaram as aulas e só no mês seguinte tivemos um pequeno seminário com o Dr. Adriano Rodrigues. Entre as dezenas de professores que aí se encontravam, lembro-me de duas colegas de história que diziam, sem rebuço, que não gostavam de ler jornais. Que nunca tinham lido um jornal sequer, mas que tinham de dar as aulas. Este é o país em que vivemos. É o país do improviso, do deixa-andar, do não te rales, da falta de especialização e depois admiram-se que os jovens continuem este desinteresse.
Nesse ano eu fiz parte da direcção da Escola de Santa Maria do Olival e pedi para ser eu a tratar de todos os assuntos com os alunos. Julgo que no País era a única escola onde as paredes não estavam esborratadas com os slogans. Tive o cuidado de os avisar no princípio do ano. Eles respeitaram.
Os portugueses não se governam nem se deixam governar porque não há quem os governe. Esta democracia não tem espinha. Não há quem se imponha, por medo da liberdade democrática que, entendem eles, proíbe melindrar os meninos e os graúdos e obrigar a trabalhar os ociosos.
Logo a seguir à Revolução fui convidado pelo PS, pelo PPD e Pelo CDS para fazer parte das listas de Deputados para a Constituinte. Por mais que insistissem não aceitei. A resposta era sempre a mesma. Não sei nada de política, não sou contra ninguém, os únicos que me interessam são os que não se sabem defender. Não aceito. E não aceitei apesar da perseverança que nessa vontade colocaram. Devo dizer que nessa altura eu era Director do “Templário” e escrevia abertamente sobre aquilo que considerava estar errado. Vieram depois as Legislativas, a 25 de Abril de 1976. Aí o CDS mandou um peso pesado, o Dr. Manuel dos Santos Machado, que no último dia e por volta das três da manhã conseguiu que eu aceitasse, como independente, fazer parte das listas do CDS e em segundo lugar, pelo que seria impossível ser eleito. Para a Constituinte o CDS não tinha metido nenhum Deputado por Santarém. Além do Dr. Manuel Machado, o saudoso Manuel da Silva Guimarães, meu conhecido e amigo, desde os tempos do Liceu da Guarda, foi outro que me moeu a cabeça para aceitar ser Deputado. Aceitei como independente, mas o CDS incluiu-me nas listas como se o não fosse. Erro grave. Eu conheço-me. Sou português. O Povo é só um. O Partido que beneficia o povo é aquele que tem o meu voto. Foi dramático, como se verá mais adiante.
Apesar de estar em número dois, e as possibilidades de ser eleito serem nulas, depois de ter aceitado o compromisso dei comigo a pensar: “aceitaste. Agora tens de mostrar que és capaz de vencer. O aliciante estava na dificuldade. O português é assim: gosta da dificuldade, gosta do desafio, é inventivo, arrojado, mas detesta a indecisão. A indecisão faz que ele se desinteresse de tudo.
Durante dois dias meditei como havia de fazer a campanha e resolvi ser auto-suficiente, tanto na estratégia, como na campanha. Comprei uma máquina de Stencil e imprimia ali a propaganda segundo a minha concepção e a mentalidade da gente do Ribatejo. Juntava a propaganda do Partido à minha. Via se alguma não se integrava no pensamento dos ribatejanos, aceitava-a, não dizia nada para não perder tempo com discussões, e metia-a no lixo.
O MRRP quando soube que eu tinha uma máquina para imprimir a propaganda pediu-me se lhes deixava também reproduzir uns papéis. A UDP fez o mesmo, e perante o espanto daqueles que sabiam desta coabitação, nós continuámos, cada um a puxar a brasa à sua sardinha, mas sem nunca entrarmos em qualquer conflito e sem revelar os segredos de como captar eleitores.
O Deputado Acácio Barreiros, com quem, às vezes esgrimia uns piropos virulentos no hemiciclo, mas com quem, fora daquele incómodo local, me dava bastante bem, um dia, em Alhandra, encheu-se de coragem e perguntou-me:
- Ó Cunha Simões é verdade que parte da propaganda da UDP, espalhada na zona de Tomar, era feita em sua casa? – Quando lhe confirmei o que me acabava de dizer, os seus olhos ganharam mais brilho. Ele devia ter pensado que o amor entre todos é a nossa força. Aquilo que nos divide não é mais que teimosia e ignorância. Ao despedir-se, a maneira como o fez, deu-me a certeza que tinha conquistado definitivamente um amigo, que, infelizmente, partiu cedo.
Apesar da minha área de propaganda me ter sido limitada pelo Presidente da Concelhia, o Dr. Baeta Neves, eu, nos meus sonhos, vi que só podia ganhar se trabalhasse em todo o Ribatejo. Assim fiz. Um dia o Dr. Baeta encontrou-me no Couço a fazer campanha, ele, com ar aborrecido, disse-me: “ó Cunha Simões, esta não é a sua área. Você não pode estar aqui”, ao que eu respondi com uma pergunta: mas os votos desta gente não contam para eu ser eleito? “Contam”. Então a área também é fundamental para mim. Não me importo de trabalhar pela eleição de todos os Deputados do CDS. Ele não ficou muito satisfeito, mas não me voltou a dizer mais nada.
Como a campanha era considerada de alto risco, pois diziam que os comunistas faziam e aconteciam, quando saía para distribuir a propaganda impressa e para dar uns dedos de conversa, aqui e além, normalmente ia sozinho, mas hoje posso dizê-lo; levava sempre um revólver comigo. Nunca quis matar ninguém, mas sentia-me mais seguro. Parava o carro nas terras, conversava, discutia, mas “o povo é sereno. É só fumaça”, como dizia o almirante Pinheiro de Azevedo. Nunca nenhum ousou partir-me a cara. Às vezes eram duros nas palavras, mas eu, mesmo sozinho, respondia-lhes na mesma moeda e seguia para outra.
Um dia, estava a campanha a terminar, venho de Ferreira do Zêzere e como tinha guardados ainda uns papéis para a volta fui-os deitando, junto das casas, na beira da estrada. Ao deitar os papéis tinha sempre o cuidado de reparar se vinha algum carro atrás e algum papel não voasse para o vidro e tapasse a vista ao condutor. Em determinado momento vejo que um Peugeot 504, com dois indivíduos, me segue. Por mais que eu abrandasse não me ultrapassava. Pensei: é desta que não te safas. Vais ter chatices. Apalpei o revólver, desapertei o botão do coldre. Abrandei mais. Eles não passavam. Quando vi um espaço aberto, fora da estrada, parei. Os sujeitos pararam a vinte metros de mim. Eu puxei o vidro para cima, deixei-o entre 7 a 10 centímetros aberto, tranquei a porta, pus uns papéis em cima do tablier do carro, tirei o revólver, puxei o “cão” para trás e preparei-me para o pior. De dentro do carro saiu um homem dos seus quarenta anos, forte, e com cerca de um metro e sessenta e cinco, um metro e setenta. Caminhava a passo incerto. Vi que avançava muito nervoso. Não me enganei. Chegou ao pé de mim e disse-me com esforço:
- Pode-me dar um desses papéis que está a atirar ao pé das casas?
- Posso. E dei-lhe um papel de maneira que o emblema do CDS ficasse na parte de trás. O Homem era de poucas letras, mas o sangue da fúria também o devia perturbar e não devia entender muito bem o que estava a ler. Eu esperei uns bons seis minutos para que ele lesse uma página que demorava, num máximo um ou dois. Nem assim entendeu o que tinha lido, mas voltou a página e viu o emblema do CDS. Aí ele desanuviou, um pouco o semblante e disse com voz de raiva:
- Se você fosse comunista, matava-o. – Quando ele diz isso repara que eu tenho o revólver apontado à sua cabeça. E disse-lhe:
- Você não matava nada. Ao mínimo gesto você era morto. Deixe os comunistas, os socialistas, os do PPD, os da UDP, os do MRPP e todos aqueles que queiram divulgar as suas ideias. Como vê, o senhor sofria as consequências do seu ódio. E o revólver continuava apontado para o homem. Mas ele, mais calmo, apesar de visado, respondeu-me:
- Mas o meu amigo matava-o a seguir. E chamou pelo o outro:
- Ó João mostra lá o que temos aí. Mas mostra só. – O outro mostrou uma caçadeira de repetição. Eu disse-lhe: mais um erro e mais um morto. Depois de o ter abatido a si, esperava que o seu amigo gastasse os cartuchos. Estaria coberto pelo carro. Julgo que ele não levaria a melhor e tinha de fugir ou deixá-lo-ia também ali estendido.
Os portugueses são assim, matam e morrem por aquilo em que acreditam. A morte não tem significado.
Consegui ser Deputado e aí vou encontrar o que eu não queria saber.
Este país nem se governa, nem se deixa governar porque não há quem o saiba governar; no entanto somos gente simpática, trabalhadora, prestável e inteligente. Os políticos têm de saber aproveitar as qualidades do povo, como afirma o Dr. João Alfredo Donas de Sá Pessoa.
Dos dez milhões de portugueses, dois milhões são peso morto. Sobrevivem com muita dificuldade. Seis milhões e quinhentos mil vivem assim – assim, e o restante um milhão e quinhentos mil comem, bebem, conversam, passeiam, tomam conta das empresas. Outros são Deputados e outros fazem parte do Governo. O que sobra, o Presidente, vê-se em palpos de aranha para manter a isenção ou a sua aparência.
Luís Delgado, no Diário de Notícias de 13 de Dezembro de 2004, é demolidor: “...do discurso presidencial, e da sua argumentação vazia, começa a nascer, com convicção, a ideia de que Belém, o PR e os seus assessores, nunca estiveram empenhados em que o Governo durasse muito tempo. Nunca, em nenhuma circunstância, e nesse «jogo» não houve transparência, nem verdade, nem grandeza institucional. Esta certeza é tão simples como os argumentos usados pelo PR: em quatro meses não se avalia nada, nem ninguém, em consciência e com bom senso. Seja um Governo, uma empresa, um projecto ou um novo trabalho.”
No dia seguinte e no mesmo Diário de Notícias, António Ribeiro Ferreira é claro: “ O Governo teve o que mereceu. O Parlamento, que aprovou um Orçamento do Estado em condições verdadeiramente humilhantes, contra a vontade de Mota Amaral, também. Falta a Presidência. O discurso de despedimento de Santana Lopes, proferido por Jorge Sampaio, poderia e deveria ser repetido, palavra por palavra, na resignação do Presidente da República.”
“ Pedro Vassalo, no “Tal & Qual” de 17 de Dezembro de 2004 é taxativo: “O que se evita discutir é que o Presidente tomou uma atitude sem precedentes, e gravíssima, num regime democrático, ao não ter identificado uma razão que fosse para demitir um Governo empossado quatro meses antes...a terminar conclui...Calhando, o Dr. Sampaio quis fazer as pazes com o PS? Talvez. Mas se calhar apenas lhe apeteceu.”
Joaquim Vieira, na revista “Grande Reportagem” de 18 de Dezembro de 2004, acrescenta: “Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia da República não por opção constitucional, mas para resolver um problema da sua consciência pessoal...mais adiante remata...O seu discurso de justificação da dissolução não justifica coisa alguma em termos constitucionais.”
O sempre ponderado José António Saraiva, no «Expresso» de 18 de Dezembro de 2004, não se coíbe de dizer: “A forma como o Presidente da República conduziu o processo de dissolução do Parlamento foi tão atabalhoada que quase deu a razão aos adversários”.
António Pinto Leite, no mesmo jornal e no mesmo dia é mais virulento: “...nunca um Presidente degradou tanto as suas relações com o PSD como Jorge Sampaio. A dissolução de uma maioria estável e o modo desleixado como o procedimento foi executado constituem uma ofensa.” Mais adiante acrescenta: “...é a mais dura injustiça de alguém quando o seu acto é contraditório com a sua conduta anterior. Ao Governo PS tudo foi permitido. O partido que levara Portugal ao abismo da bancarrota foi convidado a continuar a governar. Foi o PS que não quis continuar, não foi sequer o Presidente quem o impediu de o fazer. Há uma interpretação dos poderes constitucionais para uns e outra para outros. Há duas Constituições em Portugal. O Presidente até pode proceder assim, o que não pode é fazer crer que é independente e Presidente, por igual, de todos.”
Perante este triste pesadelo, o Presidente, não anda bem. Como consequência, e pelas palavras de uma mulher do Povo, para quem a política é o preço da renda da casa, da água, da luz, do litro do leite, da carne, do peixe e do pão, quando o Presidente se sentiu mal, no Pinhal Novo, depois de tão exaltadamente ter falado, exclamou contristada: “ai, coitado, deu-lhe o treco”.
Para entender o que hoje se passa temos de compreender o passado. Eu servirei, sempre que possível, de testemunha ou autor dos acontecimentos.
Era ainda caloiro na Assembleia da República, estava lá há cinco dias, quando o Presidente, Dr. Vasco da Gama Fernandes, me chama antes de começarem os trabalhos. E diz-me:
- Caro colega – ele tratava todos os Deputados por colegas – tem aqui uma carta do tribunal de Tomar para ir a julgamento por delito de Imprensa. – Umas semanas antes, e perante a confusão reinante, eu tinha escrito, no jornal “O Templário”, um artigo dizendo umas verdades aos pretensos indivíduos, que sem saber ou conhecimento, impunham todas as idiotices que lhes vinham à cabeça. Os ofendidos, que eram militares, resolveram meter-me na ordem. A mim que nunca fui militar, nem fiz qualquer guerra. – O Dr. Vasco da Gama continuou:
- Mas o colega esteja descansado, enquanto aqui estiver, nunca irá a julgamento. Por isso, quando eu ler a carta, e perguntar ao senhor Deputado se tem alguma coisa a dizer, a sua resposta é não. O resto é com o Parlamento. Não será julgado. Não se esqueça. A resposta é não.
O Dr. Vasco da Gama era uma jóia de homem. Eu comecei a descer as escadas para o hemiciclo e, no caminho para a minha bancada, pensei: mas eu tenho tanto para dizer. Como não abri a boca enquanto ouvia o Presidente, se dissesse o que estava a pensar, não ia quebrar qualquer promessa. Foi o que aconteceu. Quando o seguro Presidente perguntou:
- Senhor Deputado Cunha Simões, tem alguma coisa a dizer? – Eu levantei-me e respondi:
- Tenho sim, senhor Presidente.
O Dr. Vasco da Gama enfiou-se na cadeira, a sua face mudou várias vezes de cor e voltou a insistir na pergunta. Devido à minha inabalável decisão, ele suspirou consternado:
- Então faça favor.
Perante a Assembleia disse que antes do 25 de Abril tinha escrito tudo quanto me tinha apetecido, que me tinham cortado artigos, mas nunca me tinham levado a tribunal e um dos livros, o Tu cá, Tu lá era um libelo contra o que se passava de desacertado em Portugal. Provocatoriamente perguntei se afinal a democracia era antes ou depois do 25 de Abril. Disse-lhes ainda que o livro tinha esgotado, mas que eu nunca tinha sido incomodado, por isso os senhores deputados estavam à vontade para votar a minha ida a tribunal. Podia-lhe ter falado no livro “A Revolta e o Homem”, mas não falei.
O que demoraria alguns minutos, teve de ser votado, e alguns daqueles rapazes, que só ali estão para fazer número, bem votaram no sim, para ir a tribunal. Mas lá fiquei para incómodo deles e para início das preocupações no CDS.
Logo que vi qual era o jogo no Parlamento, eu que não fazia nada e me aborrecia tremendamente com a ociosidade, comecei a fazer intervenções, e a opor-me aos votos, quase diários, contra países estrangeiros.
Nós não nos sabemos como nos governar, mas teimamos em governar os outros. Eu opunha-me, sempre em nome do Povo Português que é quem paga aos Deputados.
O saudoso e inteligentíssimo Engenheiro Amaro da Costa sofria imenso. Por uma questão de solidariedade tinha de votar os votos, mas havia sempre um surdo a estragar a unanimidade. Ele pedia-me encarecidamente que não o fizesse e eu pedia-lhe encarecidamente que ele evitasse os votos. Até que ele teve de dizer na Assembleia que o CDS não voltaria a aprovar votos de protesto contra países estrangeiros.
Na verdade não nos sabemos governar, nem nos queremos governar. Preferimos governar os outros. Vão ver que Durão Barroso irá fazer uma boa Presidência da União Europeia. E é aquilo que todos os portugueses, de todos os quadrantes, menos os imbecis, vão desejar.
Como as minhas intervenções eram, às vezes um pouco desagradáveis, sempre que o meu Partido era ofendido, fui colocado em duas comissões, a da educação e outra onde andava mais por fora, para consulados, embaixadas, Presidente da República, etc. Era uma maneira de não incomodar ninguém com a minha visão rural, mas também muito urbana das dificuldades do Povo Português.
Lembro-me que um dia o Deputado Veiga de Oliveira, do PCP fez uma intervenção violenta defendendo a Reforma Agrária e atacou o CDS. Na resposta, mesmo para ali não sendo chamado, fui muito desagradável. Disse-lhe que ele de Reforma Agrária devia perceber tanto como eu, que nunca devia ter cavado um metro quadrado de terra. E como Reforma Agrária eu dava-lhe uma corda e uma figueira. Claro que exagerei na metáfora. O Deputado Veiga de Oliveira era uma pessoa ponderada e bastante educado. Longe de mim lhe querer qualquer mal. O Professor Freitas do Amaral ficou aborrecidíssimo comigo, e no grupo Parlamentar não resistiu a uma reprimenda enroupada.
- O Cunha Simões, não deve proceder assim. O nosso Partido é um Partido Democrata Cristão. Os nossos actos e as nossas palavras devem servir de exemplo para todas as outras bancadas.
Eu aceitei o reparo, o Professor tinha razão, mas continuei a actuar da mesma maneira, até para resguardar os verdadeiros políticos, aqueles que não podem perder tempo a responder ou a pensar em ofensas. Como o meu tempo sobrava tinha de o gastar, ao serviço de uma boa causa, para não entrar em stress. É preferível responder frontalmente, não da maneira violenta como o fiz, do que guardar rancores ou medos. O País tem de avançar. Pactuar com o erro ou com a vozearia insana é adiar os problemas, é nunca mais ninguém se sentir com coragem para governar.
A verdade é que eu sempre respeitei os outros, mas têm também de me respeitar a mim. Eu sou português de quatro costados, mas sou da Beira raiana e costumo responder à letra a quem me ofende, desde que esteja no mesmo grau de cultura. Se for um ignorante a provocar-me...ignoro.
Numa das visitas ao Presidente da República, que era o Ramalho Eanes. Este, que é meu conhecido desde os tempos de liceu em Castelo Branco, disse-me, a sós, depois da audiência:
- Estou muito satisfeito. Já tenho Governo. O teu patrão, dos nomes que lhe apresentei, escolheu o Nobre da Costa.
No dia seguinte, perante o meu espanto, Freitas do Amaral disse que íamos votar contra Nobre da Costa. Eu podia avisar o Ramalho, mas isso está fora do meu carácter. O que se passava dentro do Partido era sagrado.
Este incidente vai provocar uma forte irritação de Freitas do Amaral para comigo e teve consequências imprevisíveis, a curto e a longo prazo. Vamos aos factos. Quando ouvi a decisão do Freitas, eu não me contive e disse imediatamente: voto Nobre da Costa.
Na altura, Freitas do Amaral não disse nada, mas no momento da votação lembrou-se do que eu tinha dito, foi à minha bancada e disse-me em tom mais afirmativo que interrogativo:
- O Cunha Simões vota connosco.
- Não.
Vota, não vota, juntaram-se os deputados à minha volta porque o Professor insistia. Se não vota, saia do hemiciclo. Não saio. Os outros colegas pediam-me, por tudo, para sair. Não resisti a tanto pedido. Saí triste e muito descontente comigo mesmo. Naquela Assembleia tinha votado sozinho, várias vezes, contra a opinião de todas as bancadas. Aos insistentes pedidos dos meus colegas não conseguira resistir.
O mais grave estava para suceder nos passos seguintes.
À minha espera está o Doutor Anselmo Borges, que vai comigo para Tomar. Quando lhe digo que vamos embora aparece a Mina, a Secretária do Partido a dizer-me para não abandonar a Assembleia pois vai haver uma reunião importante e necessitam que eu esteja presente.
Os Deputados saem do hemiciclo. Vem tudo calado e cabisbaixo. Digo ao Dr. Anselmo Borges que não demoro mais de cinco minutos. Era só entrar por uma porta e sair pela outra assim que começasse a sessão.
Quando entrei, o silêncio, contrariamente ao habitual, era de sepulcro. Pensei para comigo: “estão arrependidos de terem votado contra um Homem honesto”. Encostei-me à porta do lado contrário. O que se passa depois é quase trágico. Não o conto agora por ser muito extenso e muitíssimo desagradável.
Resumo: Freitas do Amaral propõe que me seja feito um processo disciplinar de maneira a correr com o indesejável que ia votar contra o próprio Partido, que não obedece às orientações do mesmo, que...que...que... Foram muitas as acusações e com razão. Só a primeira é que não era válida. Para mim era a mais importante. Defendi-me fazendo acordar todos os neurónios. Às 5 horas e 40 da manhã, o Professor Freitas do Amaral foi derrotado pela primeira vez e em votação de braço no ar, o que era contrário a tudo quanto até ali se tinha feito. Saiu da sala zangadíssimo. Esteve largos meses sem pôr o pé no Parlamento. Eu fiquei muito triste.
A vítima do tempo perdido, foi o filósofo Anselmo Borges, a quem dei cinco minutos de espera, e teve de aguardar mais de seis horas. Já no carro e devido ao meu silêncio e à minha tristeza por ter derrotado, julgo que por causa do sono e de algumas verdades violentas, um homem de memória fabulosa e muito inteligente, como é o Professor Freitas do Amaral, tenho de o reconhecer, o meu companheiro de viagem não resistiu à curiosidade.
- O sr. Disse-me que eram só cinco minutos... Esteve seis horas. Foi alguma coisa de grave? – As minhas respostas eram negativas e secas. Um nó na garganta, não me deixava passar a mágoa. Naquele momento mais pelo Professor do que por mim. Ele tem muito mais valor que eu e, se o seu saber fosse aplicado correctamente ao serviço deste País todos lucraríamos. Mas o Professor Freitas do Amaral não aplica as tácticas dos grandes generais. Não fala com os soldados nem os sabe ouvir. Neste caso os peões. Ouve só aqueles que ele pensa estarem ao seu nível. Mas esses também não conhecem os problemas dos peões, do povo. Este hiato tem-lhe sido fatal. É verdade que ouvirá muita coisa sem interesse, mas...acabará por compreender onde estão as dificuldades do povo e como elas podem ser resolvidas depois da sua inteligência as transformar e implementar sem nunca ceder a demagogias ou facilidades.
O Dr. Anselmo Borges é que não queria ver a minha dor. Insistia e insistia. Já muito perto do fim da viagem disse-lhe:
- Excepcionalmente conto-lhe o que ali se passou porque o sr. ouviu cá fora, conversas truncadas – às vezes as discussões eram exaltadas e as minhas exaltadíssimas – Conto-lhe o que se passou, mas em segredo de confissão. O Dr. Anselmo Borges é padre. Ainda esperneou. “Que não era preciso, ele prometia”, mas eu não abdiquei do meu segredo a não ser em confissão. Depois de ter dito que sim. Contei-lhe. Aí ele não resistiu.
- Ó Cunha Simões, se amanhã os jornais soubessem o que me contou, você ficava o homem mais conhecido deste País. Eu dizia isto ao Nuno Rocha, - que era o Director do Tempo, e um dos jornais mais lidos do País – e seria uma bomba. - Eu não podia olhar de frente o Dr. Anselmo Borges, ia ao volante. Só lhe respondi:
- Se o senhor divulgar, o que acabei de lhe contar, a alguém, sabe que não evitarei o escândalo. O senhor sujeita-se a que eu use métodos que nunca usei, mas que sei que sou capaz de usar para defender uma posição que não é agradável para o Professor. Eu não procuro protagonismo nem o quero ter. Sei o que valho e sei como me devo comportar.
Durante anos, nem à minha mulher contei o que tinha sucedido. Nos dias seguintes o meu sorriso desapareceu. O que aconteceu não me fez mais feliz nem que eu ficasse com zanga ao Professor Freitas do Amaral, mas ele ficou e isso foi-lhe fatal. Aí já não tive pena. Tive dó. Um homem inteligente e que quer ser Presidente de todos os Portugueses tem de saber aceitar as derrotas e as vitórias como combates de ideias em que a mais válida é aquela que vence. Por outro lado, um adversário, por mais fraco que pareça, nunca se deve minimizar. A injustiça só vence porque não tem quem a combata com firmeza. O português é, por natureza, um passa culpas. Se o Professor Freitas do Amaral me tem feito um processo disciplinar e me tem corrido do CDS por eu ser indisciplinado e por votar contra o próprio Partido, eu aceitava isso com toda a naturalidade. Ele era o Presidente do Partido. Tinha todo o direito em fazer cumprir as regras. Fê-lo no momento errado. Pelo meio estava um homem, o Engenheiro Nobre da Costa, que nunca conheci pessoalmente, mas que sabia que governaria com inteligência e honestamente. Eu acreditava nele. O Professor, não só me impediu de votar nesse Homem como me arrasta para um processo disciplinar.
Antes de contar as consequências desta zanga infantil. Não lhe vejo outro nome; pueril, fútil dá tudo o mesmo resultado. Tenho de relatar outros factos que mostram a fragilidade de homens inteligentíssimos, mas que por serem maus estrategas acabam por não atingir os fins que tinham em mente.
Antes do meu processo disciplinar, o Professor tinha feito outro ao General Galvão de Melo. Eu tentei defendê-lo, mas ninguém me deu importância e a votação por voto secreto contou só com seis ou sete votos contra. O General foi expulso do CDS. Isto teve várias consequências. O General é um Homem muito inteligente, frontal e nada vaidoso, embora aparente. Consequências: todo o eleitorado que admirava o General e acreditava que com ele estava seguro, de repente esse eleitorado desapareceu, mudou-se, deixou de votar, desinteressou-se. O CDS nas eleições seguintes devia ter pensado nisto, não pensou.
Como disse o General é um homem de uma frontalidade e de uma natural e desarmante simpatia. Poucas semanas depois do sucedido estávamos no hemiciclo, uns oito ou nove, todos em pé e em amena cavaqueira, à espera que começassem os trabalhos, com o General concitando todas as atenções e muito bem disposto, quando chegou o saudoso Nuno Abecassis. O Nuno imediatamente estendeu a mão ao General para começar os cumprimentos habituais. Galvão de Melo mudou de semblante e com uma voz que ecoou por toda a sala disse-lhe: eu não cumprimento f de p. O Nuno, sem palavras, virou as costas e voltou para a sala do Grupo Parlamentar. Todos ficámos incomodados.
O meu lugar era sempre ao lado do General por quem tinha admiração e respeito. Ele procedeu daquela maneira porque se convenceu que o Nuno tinha sido um dos causadores da sua expulsão. Julgo que estava errado. E eu, com muita cautela, disse-lho. Mas julgo não o ter convencido. O causador só podia ter sido o Freitas que se tinha sentido ofendido por causa de um artigo onde o General, ao ser questionado sobre o valor de Freitas do Amaral tinha respondido que era uma homem muito inteligente, mas que ainda lhe faltava muito para estar maduro. Foi mais ou menos isto. Estou a citar de memória. Era verdade. E tanto era que o Professor continuou a cometer erros, repiso, de estratégia, e com isso destruiu as bases do CDS, tirou os apoios e ficou só com as cabeças: o Adelino Amaro da Costa, o Basílio Horta, o Nuno Abecassis, o Ribeiro e Castro, o Anacoreta Correia, o Macedo Pereira, o Canaverde, o Luís Barbosa, o Rui Pena, o João Porto, o Adriano Vasco Rodrigues, o Lucas Pires, o Narana Coissoró. Os outros deputados, que compunham o Grupo Parlamentar, eram os catalisadores das bases. Depois havia uma gama enorme de conselheiros; economistas, empresários, gestores, de enorme valor, que acreditavam neste Partido e que lhe davam todo o apoio para o CDS ter a possibilidade de equilibrar o País e rentabilizar ao máximo tudo o que havia e o que viria. Ao Professor faltou-lhe a humildade, que neste caso se chama prudência.
O segundo Governo Constitucional é sintomático. O País ganha andamento. As pessoas sentem-se confiantes. Freitas do Amaral tem um escol de gente invejável, mas, em paga, exige cada vez mais a Mário Soares, este transige quase em tudo, mas Freitas do Amaral quer ainda mais. Vasco da Gama, em Cabo Verde, disse-me que Freitas do Amaral tinha também exigido a Presidência da Assembleia da República, não sei se foi assim. Infelizmente o Dr. Vasco da Gama, já não o pode confirmar.
Discutimos a saída do CDS do Governo; Lucas Pires era um dos opositores ao abandono do Governo, com ele estavam mais dezoito. Lucas Pires, era o porta-voz daqueles que achavam que era um erro grave este largar do Governo sem uma razão válida; a determinada altura, de cansado, desistiu de combater, fui eu à liça e comprovei com variadíssimos argumentos que o País é que perderia com a nossa atitude. Lembro-me que demonstrei que o erro era tanto mais grave que não precavíamos a nossa saída, com homens nossos nos diferentes sectores governamentais, o que era o mesmo que irmos de barco até aos Açores e a meio caminho resolvêssemos abandonar o barco, largar todo o trabalho começado, e voltarmos a nado para o continente. Nenhum considerando convenceu o timoneiro. A atracção do abismo foi maior que a sensatez.
O Professor pode ser muito inteligente, mas ele, se não tiver quem lhe aperte os atacadores, espalha-se.
Para aliviar esta tristeza de factos que ainda hoje me doem porque eles são parte dos graves momentos que estamos a viver, conto um episódio saboroso, com o General Galvão de Melo, que é demonstrativo das nossas capacidades e como tomamos isso como factos sem importância.
O General, várias vezes, julgo que por simpatia, elogiava as minhas dissertações. Um dia ele faz uma intervenção enorme, muito bem estruturada, com pormenores exemplificativos do que pretendia defender.
Fiquei deslumbrado e não me contive.
- Que oração magnifica, que belo improviso, senhor General!
Galvão de Melo olhou-me com ar muito sério e respondeu:
- Ó Cunha Simões, você nem imagina o tempo que me levou a decorar este improviso.
Na segunda volta das eleições para a Presidência da República. Não sei quem me enviou o convite para um jantar no Clube dos Empresários. Devia ter sido o Dr. José Ribeiro e Castro. Quase no fim de todos os discursos, quando todos cantavam a vitória do Professor Freitas do Amaral, levantei-me para morigerar o triunfo antecipado. Desmontei alguns dos argumentos triunfalistas e disse que havia possibilidade do Dr. Mário Soares ganhar as eleições. Todos abanaram a cabeça e o jantar terminou em euforia.
Agarrei um braço ao Dr. Proença de Carvalho, mandatário de Freitas do Amaral, e disse-lhe:
- Eu sei como o Professor nunca perderá.
- Como é?
- Tem de ser ele a falar comigo. Diga-lhe. Ele ganha as eleições se falar comigo.
Os dias passaram. De Freitas, nada. Então vem ao meu espírito a parte maquiavélica. “Se o Freitas continua com birras, e ele, sendo tão inteligente, não aceitou democraticamente a votação do processo disciplinar e ainda continua zangado, tenho de dizer ao Mário Soares como lhe pode ganhar”.
Nesse momento vieram-me, à cabeça, as palavras do meu colega e deputado Reigoto, uns dias depois do processo disciplinar, que na brincadeira me dizia: “ó Cunha Simões, tu estás sempre tramado, à esquerda e à direita. Se um dia o Cunhal for Presidente da República apareces pendurado num chaparro no Alentejo e se for o Freitas nunca mais sais da prisão.
Como nunca falei com Mário Soares, vi por onde andava a Doutora Maria Barroso a fazer campanha e soube que com ela estava o Engenheiro António Guterres, com quem também mantinha uma boa relação. Escrevi uma carta com perguntas e a maneira como elas deviam ser feitas, assim como as respostas contundentes que deviam ser lançadas. O Professor Freitas do Amaral não resiste à violência das palavras. É um homem extremamente delicado. Naquela época, eu conhecia-lhe bem essa fragilidade e tinha de a aproveitar para o derrotar.
Pergunta-me se não tenho vergonha do que fiz? Não. Nenhuma. Tenho é vergonha do meu País ser mal governado; dos dois milhões de pobres e dos cinco milhões de semi – analfabetos que os políticos não conseguem alfabetizar depois de trinta anos de democracia.
O Professor Freitas de Amaral tem de ser um político especializado. Ele está em evidência. Não pode cometer erros. Espero que tenha aprendido. Eu simplesmente mostrei que havia mais um buraco no sistema. Os políticos portugueses não podem cometer erros. Não podem ser uns facilidades. Têm de ser os melhores, os mais inteligentes e aqueles que têm de resolver os problemas mesmo que não tenham ovos para fazer as omeletas. Houve ministros, até neste último Governo, que conseguiram resolver os problemas dos seus Ministérios e das empresas a eles ligadas. Souberam encontrar os meios. Uns ministros são mais inteligentes que outros? Não me parece. Mas uns são mais perseverantes. Não se conformam em não resolver os problemas. A imaginação é infinita e sabem utilizar a inteligência. São obstinados em resolver as tarefas que lhes estão confiadas. Põem o bem de Portugal acima dos seus interesses.
São meus amigos? Conheço-os? Não. Só me meto na política porque me misturo com o povo e me revoltam as suas dores.
Fui a Penamacor e como a Doutora Maria Barroso, que tinha sido minha colega na Comissão de Educação, estava sempre rodeada de povo, entreguei a carta ao engenheiro António Guterres para que fosse entregue ao Dr. Mário Soares, apesar de eu lhe recriminar a descolonização por precipitada. Como já não havia nada a fazer, e como diz o povo: “ o que não tem remédio, remediado está”, pela minha parte perdoei ao Dr. Mário Soares aquele desconcerto. O resultado já toda a gente sabe. Na RTP, o Dr. Mário Soares esmagou o Professor Freitas do Amaral. O bombista fui eu, não estou arrependido e confesso o crime.
Não estou arrependido porque Mário Soares fez-se povo.
Este povo é assim: não lhe dêem nada, mas tratem-no bem e ele já fica contente. Com Freitas do Amaral duvido. Ele só prestava atenção àqueles que ele julgava seus pares. É uma pena, porque é um homem muito inteligente. Julgo que hoje está diferente. A universidade da vida acaba sempre por se impor. Afinal todos somos iguais desde que queiramos utilizar o nosso brasão; a nossa inteligência. E é com ela que os portugueses têm de vencer todos os desafios.
O Adelino era da mesma estatura intelectual do Professor, mas era de formação superior. Quando se desenhou o quadro de que o CDS ia votar contra Nobre da Costa, no mesmo momento escrevi o editorial no semanário “A Província”, “Amaro da Costa versus Nobre da Costa” está em Intervenções – Internet www.cunhasimoes.net . Ao chegar ao Grupo Parlamentar estava o Adelino a ler o artigo. Pé ante pé coloquei-me na sua frente. O Adelino preparava-se para pensar no assunto, mas quando me viu à sua frente disse-me: “Ó Cunha Simões você não tem razão nenhuma no que diz...” – E ponto por ponto rebate as minhas ideias. No final acrescenta. “E mais, o jornal está muito mal paginado...” – A seguir dá-me uma verdadeira lição de jornalismo. Esqueceu de imediato a zanga. O mais importante para ele era a difusão do conhecimento e do amor entre os seres humanos, por isso Adelino Amaro da Costa perdurará para sempre em todos os corações.
No CDS nunca ninguém pediu segredo sobre fosse o que fosse, mas no CDS também nunca me lembro de uma fuga de Informação, a não ser a minha confissão a um padre e, embora alguns pudessem pensar que devido à amizade que me ligava ao Presidente da República isso pudesse acontecer, nunca aconteceu. Mas uma vez, o Dr. Rui Pena tinha delineado uma lei sobre a Administração Local, e o Ramalho Eanes chumbou-a. Ele estava furioso. Achava aquilo uma alarvidade, pois o Povo necessitava da lei como do pão para a boca. Irritadíssimo, ele que é um homem calmo, bom, honestíssimo e muito inteligente, gritou-me:
- Vai dizer ao teu amigo a asneira que cometeu! – Claro que acrescentou mais uns pormenores onde estavam estampadas o desalento e a indignação. A verdade é que o Ramalho de mim, nunca teve, nem sequer um desabafo enquanto foi Presidente.
O País é ingovernável a vários níveis só porque os políticos não se assumem, e não têm interesse que o essencial se processe de maneira diferente porque está no sangue, desta gente, ser assim. Mas têm de mudar. Não é uma honra servir o Estado? Não é uma honra ficar na história de Portugal? Não é uma honra saber fazer nascer do pouco o muito e a felicidade? É. Então usem a inteligência, a imaginação e misturem com a honestidade, verão que todo o povo lhes agradecerá e os recordará durante séculos.
Quando há anos se fez um grande alarido por causa das viagens aéreas e do aproveitamento de que delas faziam os Deputados, eu poderia ter ido em sua defesa contando uma história passada comigo e que demonstra bem que os deputados aproveitaram simplesmente o que era “normal” para aqueles casos.
Eis o que se passa comigo. Farto de viajar por todo o mundo e tendo já sofrido dois sustos aéreos, disse ao Adelino e à Secretária do Partido que não queria ir nas delegações diplomáticas onde iam deputados de todos os Partidos, por isso escusavam de me indicar.
Como já referi, sempre que havia possibilidade de se verem livres de mim, diziam-me: ó Cunha Simões, se não te importas vais representar o Partido aqui e ali. Nesse dia, já não me lembro qual a razão, fui almoçar à Tágide com o Presidente da Assembleia e Deputados dos outros Partidos. No final do Almoço o Dr. Vasco da Gama Fernandes disse:
- De hoje a oito dias vou à minha terra.
Eu sabia que o Dr. Vasco da Gama tinha nascido em Cabo Verde. Perguntei-lhe, vai a Cabo Verde?
- Isso mesmo. Do seu Grupo Parlamentar lembro-me que vai o Dr. Narana Coissoró. – Eu fiquei excitadíssimo. Tinha escrito o “Tu cá, Tu lá” ,disponível na Internet www.cunhasimoes.net uma das personagens era de Cabe Verde.
Nunca tinha estado em Cabo Verde, mas descrevia muitas coisas da Ilha porque num acampamento da Mocidade Portuguesa onde estavam jovens de Cabo Verde e eles contavam-me histórias deliciosas. Achei-os inteligentíssimos, muito simpáticos e sempre dispostos a colaborar em todas as tarefas. Eu devia ter os meus dezasseis anos, mas nunca mais os esqueci, nem às suas histórias. Quando escrevi o meu segundo livro, elas apareceram na minha cabeça e a maneira de homenagear essa gente foi agarrar numa personagem e colocá-la no livro. Por isso, quase instintivamente disse.
- Eu é que vou a Cabo Verde.
O Dr. Vasco da Gama puxou umas fumaradas pensativo, olhou para mim surpreso.
- Ó colega, eu já despachei todo o processo. O seu Grupo Parlamentar já tem tudo tratado. Está tudo decidido, para mais, o colega foi o único Parlamentar que recusou passaporte Diplomático. Eu ainda insisti com a minha Secretária para lhe mostrar as vantagens de o possuir. Ela voltou a dizer-me que o senhor Deputado voltara a recusá-lo por não lhe ver qualquer interesse. Foram as palavras que ela empregou.
- Neste momento, senhor Presidente, peço-lhe que aceite a minha petição.
- Perante a sua insistência, por mim revogo o que já fiz, mas agora tem o problema do seu grupo Parlamentar.
- Isso trato eu.
Quando cheguei ao Grupo Parlamentar chamei a eficientíssima secretária, a Mina, e disse-lhe:
- Ó Mina, há uma viagem a Cabo Verde e eu quero ir. Diga ao senhor Deputado Narana Coissoró que vou eu em vez dele.
- Por favor, senhor Deputado, não me peça isso. Logo com o senhor Deputado Narana Coissoró! - Mal acabou de dizer estas palavras, o Narana a entrar.
- Ó Narana, ainda bem que apareces. Tu ias a Cabo Verde...
- Vou.
- Ias. Agora vou eu na tua vez.
O Narana, que eu admiro pela sua inteligência, pela sua graça e pela sua irreverência respondeu-me à letra. “Tu vais mas é...” e voltou-me as costas para não me aturar. Eu agarrei-o por um braço.
- Tem calma. Espera. Ouve-me.
- Larga-me. Já te disse onde é que devias ir. Vai chatear outro!
- Bem, então não me resta outra alternativa... Quando começar a sessão, peço a palavra e demonstro que há deputados que exageram nas viagens ao estrangeiro. – Acrescentei mais alguns argumentos muito convincentes.
O Narana olhou-me indeciso. Mas como sabia que eu era capaz de fazer isso e muito mais voltou-se para mim, furioso:
- Vai, vai...depois acrescentou uns desejos engraçados, que me deram muito gozo, e que não se concretizaram porque o Narana tem um fundo bom. As suas palavras, nem sempre exprimem os seus estados de alma. São mais repentes, como diz o povo.
Depois da desistência do Narana, a Mina e o Presidente foram impecáveis e eu tive o que necessitava para ir, e mais 1000 dólares para despesas.
Os dias que passei em Cabo Verde foram fabulosos.
A gente de Cabo Verde é de uma simpatia fascinante, as mulheres são lindíssimas, os homens inteligentes e educados, as crianças não pedincham, mas as dificuldades, com que se debatem, só não deprimem, porque é um povo de alma nobre. Mostram grande dignidade mesmo sofrendo imensas contrariedades.
Dentro de mim sentia uma angústia muito grande. Tudo aquilo que lhes comprasse lhes fazia falta para sobreviverem. Comprei uns calções de banho por 30 dólares.
Passados oito dias depois do regresso a Portugal fui à tesouraria para devolver 970 dólares. O chefe, julgo que se chamava Santos Velho, disse-me:
- Senhor Deputado, eu já falo consigo. Vá para o hemiciclo que depois tratamos disso. – Não apareceu. Nesse dia esqueci o caso. Mas na semana seguinte estava determinado a entregar o dinheiro fosse a que preço fosse. Chamei de novo o senhor Santos Velho e quis-lhe entregar o dinheiro. Ele insistia em que ia falar comigo, mas eu sou muito teimoso e quando decido que tem de ser, não há ninguém que me faça mudar de ideias. Perante a minha determinação o eficiente chefe disse-me suplicando:
- Por favor, senhor Deputado, não me arranje sarilhos, é a primeira vez que um deputado quer devolver dinheiro.
- Mas este dinheiro não é meu. É do povo.
O senhor tanto implorou perante a minha irredutibilidade, que eu, desalentado, regressei tristíssimo por começar a perceber como todos estes meandros se movimentam. E quem movimenta estes dinheiros continua a fazer o que era hábito fazer. Como ninguém lhes diz para proceder de outra maneira, o sistema aguenta-se até alguém dizer como se deve gerir o património de todos. A falta não está nos funcionários, está no sistema.
Uma coisa era certa; o dinheiro não me pertencia.
Cheguei a Tomar, chamei uma empregada que tinha, a Manuela Cartaxo, e disse-lhe para ir pedir os papéis da Segurança Social a uma mulher que vivia na Rua Gil Avô, a Maria Fitas, e que uma vez se tinha lamentado que não recebia nada do Estado porque devia à Segurança Social. Paguei-lhe tudo e a sua situação ficou resolvida. Como ainda me sobrou muito dinheiro dividi uma parte pela Banda Filarmónica Nabantina e o resto foi para a Casa dos Pobres. Tenho de dizer isto, não para revelar um coração bom, pretensamente esmoler, nada disso. Sou como todos os portugueses. Umas vezes agarrado, outras liberal consoante o dinheiro que tenho no bolso. Conto todos estes episódios, que estavam reservados para daqui a uns anos ou até para depois da minha morte, para ver se nos compreendemos e se encontramos um caminho para resolver a dramática situação em que nos achamos. Eu já estou velho, não é por mim que luto, é pela continuidade de Portugal, que amo tanto como amo os meus filhos e netos e como amei os meus pais. Desculpe o desabafo.
O dinheiro não era meu. Era de você que me lê, era de todos os portugueses. Eu simplesmente tento aflorar motivos porque é que o País é ingovernável: neste caso e em semelhantes, porque cada um se vai displicentemente governando com o que é do Estado, em vez de considerar tudo quanto pertence ao Estado como haveres intocáveis. Algo que só pode ser rentabilizado a favor de toda a comunidade. Mas esta mentalidade está de tal modo enraizada que depois acontecem os julgamentos sobre sacos azuis, e sobre os bilhetes de avião, que deviam ter sofrido deste mesmo não-te-rales, e que mais cedo ou mais tarde tem de ser corrigido.
Quem beneficia destas verbas, normalmente não tem necessidade delas. Ganha o suficiente. Nem pensa que está a prejudicar seja quem for.
É por este e outros motivos que, em 2005, as contas do Parlamento ultrapassarão os vinte e um milhões de euros.
O Estado é excessivo? De que estão à espera?
Comecem pelo Parlamento.
Retirem 100 Deputados e racionalizem os serviços. Verão que o País fica mais leve, os Deputados restantes trabalharão melhor e ninguém fará greves ou reivindicará o seu posto de trabalho. Com isto são capazes de poupar dez milhões.
Governar com dinheiro toda a gente sabe.
Desde o começo desta revolução houve gente como Silva Lopes, Vítor Constâncio ou Rui Vilar que fizeram grandes esforços para travar despesas e realizar programas económicos viáveis. Mas tem sido o que todos sabem. Outros não se cansam de alertar para o descalabro que pode acontecer.
O Dr. Peres Metelo, no DN de 20 de Dezembro de 2004, escreve: “A despesa pública corrente, isto é, tudo aquilo que o Estado gasta que não sejam encargos da dívida pública nem despesas de investimento, cresceu 6% entre Janeiro e Novembro deste ano.” Mais adiante continua. “... é que a conta do Estado está a crescer ao dobro da velocidade da criação da riqueza do País.” E depois: “É que para se poder consolidar seja lá o que for nas Finanças Públicas, é condição necessária que se aumente o potencial de criação de riqueza da nossa economia e que esta cresça bem acima das despesas do Estado.”
Nós sabemos como fazer? Não nos damos é ao trabalho de levar a cabo medidas que outros contestem. E continuaremos assim enquanto os governantes continuarem sem espinha dorsal. Temos gente capaz para resolver as situações, mas continuamos a brincar aos suicidas.
Quando Cavaco Silva falou em políticos incompetentes, julgo que não se estava a referir a membros do Governo. Os visados seriam os Deputados onde o peso é excessivo, onde há gente a mais e onde a qualidade é bastante fraca.
O Deputado entra e fica em roda livre. É um peso morto que comete erros por impreparação. Olham o chefe e imitam-no. Algumas vezes excedem-se para tentar dar nas vistas. Fazem-no nos apartes. Mas se lhes entregam um ou outro trabalho, ele não sai perfeito. Os mais capazes nunca perdem tempo para os ensinar, encaminhar, saber procurar documentos e analisar os assuntos correntes. São muitos os deputados. São demasiados.
Privilegia-se a quantidade em vez da qualidade. É um clube de amadores e exigem-se profissionais. Era mais ou menos isto que Cavaco Silva quereria dizer, mas como disse, cada um interpretou o tiro à sua maneira. Esta é uma das pechas do português, fala e não explica, não tem coragem de ir até ao fim, com receio de ferir susceptibilidades. Fere muito mais porque a incerteza é pior do que a frontalidade. Cada um faz as suas conjecturas e ninguém aprende nada com o que foi dito, bem pelo contrário, lança-se a confusão, quando o momento não é o mais oportuno para o fazer.
Cavaco Silva devia ter pensado: “eles sabem para quem é o recado”. Mas como todo o País ouviu o recado, noventa e nove por cento ficou a apontar o dedo na direcção errada.
Em 1978, depois de uma intervenção no Parlamento, um pouco tempestuosa, e tendo sido convidado a retirar o que acabara de dizer, perante a minha recusa, o então Presidente Dr. Teófilo Carvalho dos Santos, homem impoluto, disse-me que, em face da minha teima, se via forçado a fechar o Parlamento. Ao que repliquei: “Feche, Vossa Excelência, esta casa e ficará na história. Este Parlamento nunca serviu, nem serve o Povo Português, só lhe gasta o dinheiro...”claro que ele fechou o Parlamento por alguns minutos.
Não falo dos corruptos. Esses são um mundo à parte e um verdadeiro cancro do país. O Estado chega a pagar por serviços de quinhentos euros, cinco e seis mil. E é aqui que as despesas do Estado são outro buraco sem fundo. Dei o exemplo nos milhares, mas há pagamentos de milhões.
Por isso mesmo, logo que foi conhecido o relatório de Camarate em que uma auditoria da Inspecção-Geral de Finanças à actividade do Fundo de Defesa Militar do Ultramar revelou que Portugal vendeu armas ao Irão, Guatemala, Argentina e Indonésia e que em 1980, quatro dias depois da morte do Engenheiro Adelino Amaro da Costa, foram vendidas armas para o Irão, foi indicada a existência de um “saco azul” através do qual teriam sido desviados 40 milhões de euros. Apareceram logo os mais escandalosos boatos devido à descoberta deste caso e à queda precipitada do Governo. Felizmente que a comunicação social não alimentou o fogo.
Aquilo que fizeram a Santana é inadmissível. Não houve cão nem gato que não o atacasse para lhe tentarem diminuir o carisma, se calhar preferiam-no ginecófobo.
Era muito difícil, com tanto zoilo a morder-lhe nas canelas, governar capazmente. Santana, por mais que quisesse concentrar-se na governação, o ruído era tal, que ele tinha, fatalmente, de abrir brechas. Não é justo que se trate desta maneira um Primeiro-Ministro, seja ele de que Partido for.
O País não pode continuar a ser governado sob o fogo da má-língua, da intriga, da hipocrisia e da incontinência verbal, a menos que todos prefiram um País ingovernável.
O erro de Santana foi ter perdido demasiado tempo a responder a quem mais não faz do que se entreter com os jogos de palavras. Nisso, alguns pretendentes, ao passadio governamental, são exímios em desbancar os outros para eles amesandarem. Essa foi a sua fraqueza, ao responder àquilo que não devia. Democracia é democracia, mas o povo, o que quer é ser governado. E ele depressa arranjou uma divisa que diz, mais ou menos, isto: “Democracia sem comedoria é gaita que não assobia”. O meu amigo Dr. José Patrício costuma dizer: o País já não suporta mais fantochadas. Esta democracia mais parece uma anarquia, que umas vezes funciona e outras não, porque o homem ainda está a milhares de anos da “inteligência” das formigas.
A revolução que toda a gente aceitara melhor ou pior, mas confiante na mudança foi descambando em vivas, morras, ameaças, greves, e muita irresponsabilidade. Tanta, que acabaram por delapidar a pesada herança que Salazar e Caetano tinham acautelado nos cofres do Estado. O FMI ameaça que ou tomávamos juízo ou não avalizava mais asneiras. A CEE estendeu-nos a mão em 1985. Depois passou a União Europeia. Com as costas quentes, Portugal teria todas as possibilidades para singrar e se colocar, rapidamente, a par dos povos mais ricos, mais prósperos e mais civilizados da Europa. Que fizeram os políticos? Esbanjaram o património apesar de terem recebido centenas de milhões de euros da União Europeia. Aquilo que fizeram é o mínimo que qualquer analfabeto seria capaz de fazer. E continuam todos com a cara na água, satisfeitos da obra, enganando o povo, a quem distribuem migalhas, a quem não ensinam e que começa a olhá-los de soslaio.
A tempestade paira no ar e, ou eu muito me engano ou isto vai acabar mal.
Neste momento estamos sem Governo.
Quase apetece perguntar:
Precisamos de Governo para quê?
Precisamos de Presidente para quê?
Precisamos de Parlamento para quê?
Quanto nos custam estas instituições?
Elas valem a pena?
Porque não somos só governados pelos Directores Gerais que já existem?
Isto começou a não ser um país a sério.
Alguém virá de fora para nos governar tal como nós enviamos de dentro, um dos nossos, Governar os outros.
O Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, nasceu nos nossos campos, bebeu o nosso leite, alimentou-se do nosso Sol e da alegria saudável e pura das nossas gentes. É um Português. Nós somos diferentes dele? Não.
Os Governos dos outros países da Europa escolheram-no porque ele é o melhor.
O português é um governante nato. Em cada português há um presidente e é por isso que somos um Povo dificilmente governável. É por isso que os nossos governantes falham. Como os governantes não governam, os portugueses governam-se e dão sinais de aviso.
Este momento por que passamos parece-me ser o sinal mais evidente que a transformação do País começou.
Vejamos os passes desta nova revolução, que sobe das bases e que obriga os políticos, os empresários, os gestores, os professores, os comerciantes, os pescadores e os agricultores a usar vinte por cento da sua inteligência para entenderem que a sua sobrevivência está na sobrevivência de um Povo que começa a estar saturado de tanta incompetência, de tantas facilidades, de tanto medo de alguém governar racional e inteligentemente.
Perante a vil situação em que nos encontramos: sem dinheiro, sem dignidade e sem Governo, apelo à sua inteligência para que mostre compreensão pelo Governo que venha a sair das eleições, seja ele qual for, mas não lhe perdoe os luxos, os gastos sumptuosos, a inépcia, a corrupção. Os sacrifícios têm de caber a todos.
Seja de Esquerda, da Direita, do Centro, da Extrema-Esquerda ou da Extrema-Direita, fique acima de qualquer um destes rótulos. Todos temos de estar unidos. Todos somos portugueses.
Quando os políticos se comportam como estátuas (simulacrum, i), os cidadãos devem tomar conta do seu próprio destino e perante a inoperância destes simulacros, mesmo que seja obrigatório sustentá-los, devemos cumprir as leis e rentabilizá-las de maneira que nesta casa todos vivam confortavelmente até que os governantes aprendam a governar ou definitivamente se envergonhem por não o fazer.
As qualidades dos portugueses, os seus genes são os mesmos daqueles que criaram Portugal a partir da vontade e da inteligência.
Tal como o Universo que foi criado por um pequeníssimo ponto de energia pura, e que ao longo de mais de trezentos e quarenta biliões de anos criou, paciente e meticulosamente estrelas, mares, terras, animais e plantas, assim Portugal saiu de um pensamento, se ergueu, desenvolveu, destapou países até então escondidos da civilização e criou novos patrimónios da humanidade.
Na Europa somos o País com as fronteiras mais antigas. Sinal que somos gente capaz.
Embora o país esteja de rastos e seja alvo da chacota e do desprezo de todo o mundo, mesmo daqueles que não o dizem ou não o aparentam, os Portugueses são tomados como os coitadinhos ou os imbecis da Europa, a verdade é que não somos. Basta relembrar que à frente e como Presidente da União Europeia temos o Durão Barroso; que entre os mais destacados cirurgiões do mundo, o António Damásio, além de um Prémio Nobel, o Saramago, um Siza Vieira e mais umas quatro centenas de outros que vendem lá fora, a inteligência, que aqui é não é aproveitada. Dentro do País temos também várias centenas espalhados nos sectores mais diferenciados.
Continuo a afirmar que os portugueses são muitíssimo inteligentes.
Querem uma lista de pessoas, conhecidas, que podem levantar este País? São de Diferentes quadrantes políticos. O País não é só um? Não queremos todos o mesmo? O Partido que ganhar, pede aos ex - opositores o elemento que lhe falta. Não têm coragem para o fazer? Nem um pede nem outro empresta? Então deixem-se de políticas a menos que os do mesmo Partido sejam todos muito bons.
De qualquer maneira deixo aqui uma lista para melhor explicitar a ideia:
Abel Mateus, António Borges, António Dias Sequeira, António Lourenço dos Santos, António Mexia, António Vitorino, Assunção Esteves, Belmiro de Azevedo, Carlos Carvalhas, Carlos Melo Ribeiro, Conceição Oliveira, Eduardo Marçal Grilo, Ferreira de Oliveira, Guilherme de Oliveira Martins, Hermínio Marques Ferreira, Jaime Gama, Leonor Machado, Ludgero Marques, Maria João Rodrigues, Marques Mendes, Mota Amaral, Nobre Guedes, Nuno Morais Sarmento, Octávio Teixeira, Patinha Antão, Paulo Portas, Pedro Roseta, Rui Pena, Saldanha Sanches, Santana Lopes, Vital Moreira, Zita Seabra e tantos e tantos outros que serviriam o País sem andar de mão estendida a implorar mais vencimento e a mostrarem, com o seu exemplo, que a honestidade, o trabalho e a inteligência estão no seu brasão de honra.
Conto-lhes três histórias de homens que queriam servir o País.
O senhor António Champalimaud, um dia pediu-me para ir à sua casa na Lapa. Eu nunca tinha falado com ele pessoalmente, nem tinha nada que me ligasse à pessoa em causa. Era um homem muito frontal. Foi directo ao assunto. Queria ser Presidente da República e tinham-lhe indicado o meu nome, ainda hoje não sei quem, como o mais capaz para lhe estudar as possibilidades e para levar a ideia por diante. Disse-me imediatamente que seria bem remunerado. Falou-me numa quantia muitíssimo elevada. Aceitei a tarefa e durante quase dois meses contactei imensa gente, dos mais variados extractos sociais. Não recolhi mais de 2% de opiniões favoráveis a uma hipotética candidatura do senhor António Champalimaud a Presidente da República. Uns achavam que o momento não era propício, outros que ele era um fascista, outros que tinha ganho a fortuna à custa dos trabalhadores e poucos concordavam, acreditando que um homem que tinha sabido ganhar dinheiro, também o sabia distribuir e que ele iria fazer tudo para coroar a vida com o melhor que ele pudesse dar ao País.
Voltei à Lapa e apresentei os resultados. Mesmo assim não se convenceu e disse-me:
- Mas eu tenho três milhões de contos para investir na campanha.
Respondi-lhe que nem que tivesse trezentos milhões. Conheço bem o povo. Nesse tempo já tinha escrito alguns milhares de páginas sobre esta gente. Conheço-os. São como eu. Quando teimam não há ninguém que os vire ou os vença. António Champalimaud voltou a argumentar e a insistir. Respondi-lhe que era dinheiro deitado à rua. Começou a ficar aborrecido, a história é grande, acabei por não lhe aceitar um cêntimo, apesar da sua insistência em pagar o trabalho apresentado. Nunca mais nos encontrámos. Senti que ele ficou ofendido comigo. Não com o Povo. Demonstrou-o ao oferecer a sua Fundação, agora dirigida pela Doutora Leonor Beleza.
Quem me contactou também para o mesmo efeito foi o General Kaúlza de Arriaga. Com esse, os contactos foram sempre telefónicos. Telefonava-me à noite para casa, mas como era Presidente do Clube Thomarense, considerado o clube dos ricos e também Presidente da Sociedade Nabantina, considerada o clube dos pobres, ou estava num lado ou noutro. Com o General Kaúlza disse-lhe imediatamente que não aceitava, não por falta de consideração por um homem, que eu considerava honestíssimo, mas sim porque sabia o resultado a que levariam as eleições. Julgo que ficou triste com a minha decisão pois nem encontrar-me com ele aceitei. Não valia a pena. Éramos dois a ser enganados se ele concorresse. O povo não queria. Alguma comunicação social tinha exagerado na apreciação destes homens de trabalho, inteligentes e amantes da sua Pátria. O povo estava muito influenciável. Hoje já começa a saber o que quer e a distinguir o trigo do joio. Hoje, o povo já vota mais nas pessoas que compõem os partidos do que no próprio Partido que eles tinham escolhido inicialmente.
O terceiro foi o General Spínola, esse não sei o que desejava, nem me interessou saber. Embora imaginasse. Quem me contactou várias vezes, como seu porta-voz, foi o coronel Vasco Salema, tio de minha mulher, um homem de honestidade exemplar e militar de honra. Não cheguei a encontrar-me com o homem. Nunca consegui esquecer que ele tinha abandonado a direcção do barco e nisso continuo firme nos princípios. O capitão ou salva o barco ou afunda-se com ele. Abandoná-lo à sua sorte quando acendeu um rastilho, quando deu azo a transformar um levantamento de rancho, por questões de reivindicação salarial, em pronunciamento político, quando aceitou apadrinhar os capitães para dar credibilidade ao acto e depois foge? Com gente desta não os consigo olhar de frente.
Aqui tem três personagens diferentes, mas todas com uma ideia do País que gostariam de ter sem se preocuparem nem com maiorias ou minorias. Nos dias de hoje temos de nos interessar por todos, mas cortar a direito. Sem um pouco de dor nem o próprio amor sabe bem. Depois de passar, a felicidade está à frente de todos e só não a aproveita quem exacerba as suas exigências por ignorância ou por arrogância.
Já que ninguém ensina como se pode viver de maneira diferente no mais belo País do mundo, aquele que tem o melhor clima, as melhores praias, o melhor vinho, o melhor azeite, o melhor queijo e a melhor gente, só lhe posso dizer: não tenha vergonha do seu País como tem vergonha dos seus governantes. Se os governantes lhe causam desilusão desde o Presidente da República, aos Ministros e aos Deputados, nunca baixe os braços.
O Português nunca precisou que o ensinassem a governar, simplesmente no século XXI as regras de vida mudaram radicalmente. Hoje aprende-se mais num dia do que se aprendia em cem anos, entre os séculos VII e VIII. A aprendizagem tem de se fazer todos os dias.
Hoje são outros que avançam o conhecimento, mas já houve tempo, no século XVI, que esse conhecimento era determinado pelos portugueses.
Tem de acreditar em si, na sua força e na sua inteligência. Nunca desanime, não pense que tem de viver toda a vida na mediania ou a viver assim, assim. Mas também não queira viver de expedientes. Não é preciso.
Hoje o seu País não é só Portugal. A partir de 1985 cresceu, ganhou corpo, alargou-se, fundiu-se. O seu País é toda a Europa. É um espaço rico onde prosperam os mais trabalhadores e os mais inteligentes. Posso assegurar-lhe que pode ser um deles. As portas estão abertas, basta querer, para saltar da escravatura que é a pobreza e o comedimento envergonhado, e entrar no clube dos ricos. É só submeter-se a um trabalho organizado, a uma gestão perfeita e passa imediatamente de um simplório a cidadão com conta no banco e livre. No seu País também é livre. Mas de que lhe serve? Olha para o ar, roça-se pelas esquinas, implora uns euros aos pais ou aos amigos, importuna o Governo, parasita. Isso não é viver, é rastejar.
Se não quer, por agora, trabalhar na terra onde nasceu, largue o seu lar, largue o comodismo e faça-se à vida. Ou quer passar o resto do tempo a lamentar-se, a dizer que é um infeliz, que os governantes são umas bestas, que eles são culpados de tudo quanto acontece?
Eu continuo a insistir que o culpado é você. Claro que não concorda.
Os políticos têm falhado. Dão uma no cravo e duas na ferradura. De batimento em batimento, o seu, o meu e o orgulho de todos os portugueses tem-se vindo a deteriorar. Começamos a sentir que pouco valemos e começamos a acomodar-nos à situação. Mas isso não pode acontecer.
As energias dos seus antepassados redemoinham na atmosfera e todo o Universo pode sofrer com as suas preocupações.
Como havemos de sair desta triste condição? É simples. Se os Governantes não conseguem Governar este País, mostre-lhes, que, sempre respeitando as leis, sabe criar riqueza e felicidade.
Este País é uma realização harmoniosa da Natureza. Isto significa muito. A beleza, a educação, o conhecimento são as armas do sucesso. Você só não tem tudo porque não usa a inteligência e a força do trabalho. Portugal e toda a União Europeia estão de braços abertos à sua espera.
Em Portugal aproveite tudo o que as leis e o Estado lhe permitem para, mesmo sem governantes ou quando eles falham, você construir solidamente a sua vida, o futuro dos seus descendentes e o futuro do seu País.
A escola é a sua base de sucesso. Sem escolarização você não vai a lado nenhum e continua escravo.
Quando um Governo reconhece que é impossível melhorar as qualificações de 3,1 milhões de adultos, em matéria de educação e formação, até 2010 para atingir os objectivos da União Europeia mostre-lhe que o impossível não existe.
Através da Televisão e com o suporte dos nossos empresários, que também querem gente melhor qualificada, você pode provar ao Estado que a sua inteligência supera a fraca qualidade de quem está sempre hesitando.
Até 2010 e com o apoio das televisões, de professores reformados e dos professores excedentários a meta dos 3,1 milhões é perfeitamente alcançável e podem-se mesmo atingir os 4,3 milhões de portugueses que podem reduzir a zero a iliteracia e aumentar o conhecimento a níveis europeus. Falo por experiência própria. No ensino particular tive vários alunos que fizeram cinco anos num ano de ensino e sete anos em dois. Eram adultos. Ao adoptar as técnicas modernas tudo pode ser melhorado. Lembro-me que um ex - administrador da Fábrica do Prado, o senhor Augusto Góis, homem que subiu a pulso todos os degraus da vida, aprendeu em três meses Inglês e Francês, hoje fala fluentemente estas línguas. A proprietária do Aviário de Santa Cita, D. Manuela, aprendeu Inglês em três meses para importar frangos dos Estados Unidos. Poderia citar dezenas de outros. Isto antes do 25 de Abril.
Felizmente que a língua Inglesa vai ser obrigatória a partir dos oito anos. Para o português aprender qualquer língua é de uma simplicidade tremenda. As línguas aprendem-se do mesmo modo que se ensina a falar uma criança de dois anos. Não há gramática. A gramática só entra no final, depois da estrutura estar montada e bem escorada.
Na Escola de Santa Maria do Olival sofri inspecções do Ministério da Educação porque passava alunos que reprovavam às outras disciplinas. Avaliados os alunos, com testes para me acusar, chegaram à conclusão que estavam aptos para passar em língua francesa. Nunca me importei nem dei importância ao que alguns atrasados mentais não entendiam. Só faço o que me dá prazer e beneficia os outros. Sou português. Por mim vejo como é difícil ser orientado por gente que usa palas nos olhos. E não falo nos governantes, falo naqueles que emperram o andamento do progresso porque aprenderam de uma maneira e depois, para eles, o mundo parou. Aqui também estão os culpados pelo país se tornar ingovernável. Hoje a aprendizagem tem de ser diária. Quem não ler jornais, ouvir rádio, vir televisão e não souber mexer num computador está sempre a atrasar-se em relação àqueles que utilizam estes meios de conhecimento e de trabalho.
Desenterro estes factos, que estão numa autobiografia, a publicar lá para as calendas gregas, para mostrar como somos e do que somos capazes. Entrei nos diferentes bastidores e destapo uma ponta do iceberg, mas se o País precisar irei mais fundo até encontrarmos a raiz do mal e a extirparmos.
Antes do 25 de Abril os professores não entendiam os alunos e os alunos desinteressavam-se daquela pepineira, hoje não estamos melhores, mas tudo pode mudar de repente. Eu acredito muito nas novas tecnologias e nos seus milagres. Basta acreditar e trabalhar.
Se o Governo que aí vier não conseguir revolucionar as mentalidades das corporações instaladas é porque lhe interessa, é porque teima em privilegiar a ignorância, patrocinar a ignorância, proteger os amigos em desfavor da competência e do trabalho.
Uma jovem portuguesa, Carla de Almeida, que fez toda a sua educação em Inglaterra, onde os pais trabalham, ao vir, através de intercâmbio, para uma Universidade Portuguesa imediatamente detectou o falhanço do nosso ensino. Na Universidade os estudantes ainda continuam a ser proibidos de pensarem por eles. Se o fazem são penalizados. Isto acaba por lhes criar atitudes passivas e negativas. Os alunos são proibidos de analisar e pensar por eles próprios. Têm de continuar a decorar o que vem nos livros ou aquilo que o professor debita.
Neste momento a Carla está a trabalhar num livro sobre a mais antiga profissão do mundo e fá-lo com a liberdade que a Universidade Inglesa lhe ensinou a privilegiar.
O que a Carla me contou fez-me lembrar o que aconteceu comigo. Como reprovei no (antigo) quinto ano, resolvi, no ano seguinte, fazer o sexto e sétimo num ano. O jovem que, em dois meses, me deu latim e grego era um ex-seminarista. Entrou para a faculdade e enquanto as minhas notas rondavam o 13 a latim, ele não passava de dez porque teve o arrojo de chamar a atenção da professora para várias falhas na matéria que ensinava. Resultado abandonou a Universidade.
Hoje em dia, o magister dixit, continua a imperar. As corporações estão instaladas. Se o Governo não tiver coragem para as desbancar alguém terá de o fazer.
Acreditemos em Ján Figel, Comissário Europeu da Educação, Formação, Cultura e Multilinguismo, quando diz:
“ O conhecimento é a chave do futuro.”
Mais adiante, na entrevista que concedeu a João Pedro Oliveira, DN de 27 de Dezembro de 2004, sublinha:
“A criação do espaço europeu de ensino é o grande objectivo”
...”Temos de ter sistemas de educação comparáveis e compatíveis”...
...” Precisamos de transparência e mobilidade”
... “ O Europass, será lançado em Fevereiro.” - O Europass é um currículo europeu preenchido online e reconhecido e legível em todo o espaço europeu.
... “Queremos chegar aos 150 mil estudantes envolvidos em projectos Leonard da Vinci.”
... “Passar de um milhão para três milhões de estudantes envolvidos no programa Erasmus até 2011.”
A terminar, Ján Figel, fá-lo com chave de ouro:
“A resposta da UE tem de ser a formação vocacional e educação ao longo da vida. Já não chega o ensino secundário ou um curso superior. É necessária formação permanente”.
No site O Ploteus – www.ploteus.net – encontra todos os sistemas de ensino da UE, assim como todas as possibilidades para estudar em cada um deles.
Salientei estes passos, separando-os, para que eles martelem bem a cabeça de todo e qualquer cidadão, de pais, alunos, professores e Governo.
O nosso ensino foi sempre o calcanhar de Aquiles.
Portugal nunca foi transparente no campo da instrução. As Instituições académicas foram sempre muito débeis, tão débeis que os alunos as sacodem. Eu vi por mim. Rejeitava. Sacudia a lengalenga.
É inacreditável como este País, que teve a sua primeira escola pública em 1269, no mosteiro cisterciense de Alcobaça e que em 1835 seja declarada a escolaridade obrigatória e tenham sido criados os primeiros Liceus e Institutos, chegue a 1912 com 80 por cento de analfabetos em seis milhões de habitantes e, vergonha das vergonhas, em 2005 ainda tenha 15 por cento de analfabetos em dez milhões de habitantes.
Nem a Primeira República, nem o Estado Novo e ainda menos a Terceira República conseguiu eliminar este flagelo.
O escritor, Manuel Poppe, diz que o grave erro no pós 25 de Abril foi ter-se descurado a Educação e a Investigação.
O português ainda não foi ensinado a raciocinar e a consultar os livros. Os homens da revolução, mesmo sem darem tiros, destruíram tudo o que laboriosa e custosamente estava feito. Acabar com as Escolas Industriais não lembraria ao mais tolo. No entanto foi feito e não houve quem o tentasse impedir.
Continuo a falar para si e para os seus filhos. Você pode saber pouco, mas sabe que é na Escola que está o segredo da sua riqueza e do seu conhecimento. Então sabe que é fundamental ter os seus filhos na Escola desde tenra idade. Nunca os pode deixar desamparados, a viver em roda livre e a só estudarem quando lhes apetece. A vida tem regras. Elas aprendem-se de pequenino. Tem de os orientar com pulso firme. Escusa de lhes bater, basta orientá-los desde o nascimento. Não se esqueça de os deixar brincar, mas nunca perdendo de vista os estudos e que os deveres escolares sejam feitos todos os dias de modo a criar-lhes hábitos de trabalho. Repare nos Alemães, olhe para os Ingleses, olhe para os Suecos, repare nos Finlandeses, olhe para os Judeus, olhe para os Suíços, olhe para os japoneses, olhe para os Chineses. Tudo povos de trabalho e de conhecimento.
Nas diferentes escadas que os seus filhos têm de subir, tem vários organismos onde pode encontrar resposta às suas dúvidas. O País não está bem, mas nunca me constou que o Ministério da Educação tenha fechado as portas a quem deseje estudar. Contacte-o. Ou precisa que o levem às costas? É fundamental que pense que também tem deveres. Nunca seja parasita ou comodista. Não tem necessidade. Tem inteligência, duas pernas e dois braços e vontade de sair da pequenez onde está confinado.
A sua inteligência abarca todo o mundo, por isso, se a usar em Portugal ou no resto do seu País que é a União Europeia, ainda lhe sobra muita massa cinzenta para saber que pode ser rico e feliz e contribuir para a riqueza e felicidade dos outros.
Os seus filhos ao nascerem, tenham nascido em berço de oiro ou em casa modesta, têm à sua disposição o Infantário. Para usufruir dos Infantários basta contactar os Organismos postos à sua disposição pelo Estado. Esforce-se um pouco, procure. Tem cabeça para pensar e pernas para andar.
Àqueles que se desculpam com a frase sempre molemente repetida: “não há trabalho”. Eu respondo interrogativamente: não há trabalho? Olhe à sua volta. O que vê agrada-lhe? Como já entendeu, ainda há muito a fazer e somos poucos. Somos tão poucos que têm de vir outros de fora para fazerem aquilo que você não quer fazer. Há trabalho aqui e em toda a Europa. Os desempregados são gente atrasada, ignorante, ou tolos que preferem viver de mão estendida à espera de subsídios de sobrevivência. Falo de gente desempregada entre os 20 e os 50 anos.
Como percebeu é a indignidade, é a perda de brio, é o desinteresse que transforma o ser humano num mendicante.
Tenho de ser franco, se em vez de trabalhar preferir viver à custa dos outros, de passar ao degrau do coitadinho, a sua respeitabilidade está muito debilitada. Só o trabalho e a inteligência são os suportes do ser humano. E se não arranjar trabalho, invente você trabalho. Crie a sua própria empresa. O Estado é fraco, mas neste caso, sempre o pode ajudar.
Lembro-me que, há poucos anos, um engenheiro, acabado de sair da Universidade, não encontrou trabalho, ele foi para limpa-chaminés. Passado tempos criou uma empresa, altamente rentável neste ramo. Vários jornais falaram no caso.
Se unir a teoria à prática e se não ficar inchado com doutorices, vai ver que é muito mais simples arranjar trabalho do que pensa.
No livro, “Olá Juventude”, em preparação, e que o coloquei na Internet www.cunhasimoes.net ; para o completar aí, tento abrir caminhos através de exemplos onde estou envolvido. Ainda não terminei esse livro porque tenho sempre outras ideias para desenvolver.
A pouca cultura, de mais de metade do povo português, faz que ele só entenda aquilo que lhe entra pelos olhos dentro.
Depois do 25 de Abril houve comediantes que aproveitaram as portas do democratismo para disseminar, subliminarmente, os seus próprios desejos; a indignidade, a sida e as fezes mentais, destes energúmenos, sob a exagerada e acéfala protecção da palavra democracia. Alguns histriões atingem o clímax da obscenidade sexual, repugnante, ordinária quando actuam nas democráticas e permissivas televisões, o que induz as classes, menos esclarecidas, a comportamentos reprováveis em animais irracionais, quanto mais em seres humanos. Estes farsantes sabem que ao proibirem-lhes os programas verão aumentar o seu proteccionismo, porque argumentarão em seu favor com a liberdade de expressão. Ninguém ousa, tal como já se faz para o tabaco e o álcool, colocar, estes impropriamente chamados programas de entretenimento, em horas onde é costume passarem-se filmes pornográficos, mas muitas vezes, com muitíssimo menos pornografia do que os programas destes bobos, cheios de dinheiro, à custa da contaminação infame de um país de crédulos.
O dinheiro gasto pelas televisões com estes histriões podia ser canalizado para os tais programas de qualificação que a União Europeia exige para nos podermos igualar aos países mais ricos da Europa. Tenho a certeza que as audiências se manteriam desde que as pessoas soubessem que isso era do seu interesse.
Portugal só é ingovernável porque os políticos não são bons gestores. Eles rodeiam-se de assessores sem qualidade. O resultado está à vista.
Um País, ávido de conhecimento, só não avança porque os seus dirigentes são ineptos. Deixam-se influenciar pela cegueira nacional, pelos demagogos, pelos bota-abaixo, pelos invejosos, pelos imbecis e por aqueles que, não sabendo de nada, falam de tudo e têm ao seu dispor os meios de comunicação.
Quando os políticos compreenderem que um País que privilegia o saber e todas as tecnologias de informação é porque quer aprender então o país ganhará rumo.
Oitenta por cento dos portugueses possui telemóveis e quase cinquenta por cento utiliza a Internet, será que, com estes valores, os portugueses são mais incapazes do que os alemães, os suecos, os noruegueses ou os Japoneses?
Os políticos estão à espera de quê?
Caro leitor guardei durante quase 30 anos factos que considerava como abastardamentos do carácter português, hoje comecei a levantar a tampa...
Muitas vezes somos pequeninos, o Povo diz miudinhos, a actuar em determinadas circunstâncias. Isso não pode continuar a acontecer. Os responsáveis pelo País, os políticos têm que pôr acima dos seus humores ou das suas conveniências o interesse de Portugal.
Aquilo que neste momento, finais de 2004, princípios de 2005, acontece faz-nos bater no fundo. Se não estivéssemos na União Europeia, Portugal seria orientado pelo Fundo Monetário Internacional, o que nos guindaria ao clube dos alienados, ao dos menores mentais, ao rebotalho do mundo. Será que estamos mesmo no fim? Será que perdemos todas as nossas capacidades? Que a regeneração de células se deixou de processar? Que estamos ao nível dos povos que fazem guerras, por tudo e por nada, e de outros que começam guerras sem saber como as hão-de terminar e se assumem como democratas e gente decente?
Aqui há anos publiquei uma novela, “Há mulheres que não se esquecem”. Procure na Internet em www.cunhasimoes.net ; com o subtítulo, Diana. Nesse livro digo que os homens só deviam ser considerados adultos a partir dos trinta e cinco anos. Julgo que me enganei. Tenho que alargar o tempo em muito mais anos. Claro que me incluo no lote.
Antes que sejamos incinerados no fogo da global estupidez, peço aos políticos, ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, aos Ministros, aos Secretários de Estado, aos Deputados e a todos os Presidentes das Autarquias que pensem em Portugal, no futuro dos seus próprios filhos e de todos os portugueses, caso contrário iremos entrar, fatalmente, no caminho da total irresponsabilidade.
Mesmo sem qualquer revolução visível, o Povo tomará os políticos como títeres risíveis, nunca mais os respeitará e cada um fará o que bem entender. Estamos a um passo para que isso aconteça. Não haverá prisões para comportar tanto descontente. É a revolução pacífica da qual todos sofreremos as consequências.
Não podia calar, por mais tempo, esta dor que é ver destruir Portugal, o nosso País, por gente acriançada que teima ir para um cargo público como se fosse para a sua retrete.
É por amor e por desespero que vos peço: salvemos Portugal. Ponhamos de parte o amadorismo, os melindres, a arrogância, a importância, ponhamos de parte as birras infantis. Salvemos Portugal.
A demissão do Governo pelo Presidente da República e o pontapé no rabo aos deputados foi o tsunami português. Cair mais baixo é muito difícil. Já não restam senão os dedos. É com eles, e com a inteligência, que temos de levantar Portugal.
O português tem de deixar governar quem governa. Tem de aceitar sacrifícios para Portugal voltar a navegar. Tem de acreditar em si e aceitar o trabalho que houver, depois muda.
O Governo não pode beneficiar as clientelas só por causa do voto, do barulho e da colagem de cartazes. As pessoas têm de mostrar valor e obra, caso contrário, o Governo que for eleito, sujeita-se a graves consequências. Nas páginas anteriores dei exemplos elucidativos. Quem não quiser entender, não entenda, mas depois também não se queixe ou deite as culpas para o povo.
O Povo português tem tanto de doce como de rude. Não estiquem mais a corda.
Acima dos interesses pessoais, das birras, das ofensas mal digeridas, das teimosias e dos orgulhos está Portugal.
Os Portugueses aceitarão qualquer vencedor, desde o PCP, o BE, o PS, o PSD-PPD, ou o CDS-PP.
Os Portugueses querem ser bem governados.
Por Portugal todos daremos a vida.

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